Lucy P. Marcus
Lucy P. Marcus 29 de Novembro de 2016 às 20:00

Um novo Trump?

Ser presidente e candidatar-se à presidência requer competências muito diferentes. O presidente eleito Trump deve usar os seus primeiros 100 dias no cargo não apenas para fazer nomeações e priorizar a legislação, mas também para estabelecer um tom tranquilizador para a sua administração.

No 27º aniversário da queda do Muro de Berlim, os Estados Unidos elegeram um presidente que planeia construir um muro ainda maior, desta vez na fronteira com o México. Agora, o presidente eleito Donald Trump deve decidir se quer avançar com sua agenda divisiva ou promover os melhores interesses da América.

Há fortes paralelismos entre a vitória de Trump e a decisão do Reino Unido de abandonar a União Europeia, no passado mês de Junho. Os republicanos entrevistados depois de conhecido o resultado das eleições pareciam quase tão chocados como os arquitectos da campanha "Leave" do Reino Unido na manhã seguinte ao referendo. Mas ninguém ficou mais abismado do que o lado perdedor que, em ambos os casos, se esperava que ganhasse.  

Um efeito do referendo sobre o Brexit que já surgiu também nos Estados Unidos é um aumento nos crimes de ódio, incluindo um número alarmante de incidentes relatados em escolas e campus universitários. A vitória de Trump encorajou alguns dos seus seguidores, que passaram do anonimato de abusar de alvos nas redes sociais para uma abordagem aberta nas ruas.  

Isso não é surpreendente: a campanha de Trump foi marcada por quase 18 meses de vitríolo, não apenas contra a sua adversária, mas também contra as instituições governamentais americanas, imprensa e muitos segmentos da população dos EUA, particularmente imigrantes, refugiados, apoiantes do movimento Black Lives Matter e muçulmanos. Trump conquistou o apoio do Ku Klux Klan e cercou a sua campanha com os nacionalistas brancos do chamado alt-right.

De facto, muitas das promessas que Trump fez aos seus apoiantes durante a campanha são altamente divisivas e até perigosas, e a sua implementação poderia ter sérios efeitos adversos sobre a vida dos norte-americanos, provocando agitação civil. Por outro lado, abandonar algumas das políticas que prometeu poderia desencadear uma reacção - talvez violenta - entre os seus defensores.

Por mais ocupado que esteja a planear a transição para a Casa Branca - seleccionando a sua equipa e priorizando as suas muitas promessas - não deve ignorar esse risco. Se Trump espera ser algo remotamente próximo de um líder responsável, deve actuar com urgência para abordar as divisões profundas que tão entusiasticamente alimentou durante a sua campanha.

Isso significa tornar-se mais presidencialista, defendendo uma abordagem calma e razoável que enfatize, acima de tudo, a defesa da Constituição e do Estado de Direito. Deve começar por falar firmemente contra a violência e tomar medidas proactivas para proteger os imigrantes e as minorias, que estão compreensivelmente temerosos de ataques por parte dos seus apoiantes.

Em termos mais gerais, Trump deve evitar o triunfalismo e reconhecer, com uma humildade que não lhe é característica, a magnitude do desafio que se avizinha. E deve transmitir uma mensagem credível sobre uma abordagem consensual, descartando a hostilidade partidária que tem dominado a política dos Estados Unidos nos últimos anos e, em particular, a campanha que acabou de terminar.

 

Certamente, Trump não está sozinho nisto, e um líder é tão bom quanto a sua equipa. Para construir credibilidade, Trump precisará ser transparente sobre a forma como escolhe os nomes para a sua administração, garantindo que inclui o conhecimento e a experiência que lhe faltam. Deve encontrar maneira de a fazer funcionar, reunindo um grupo que o consiga aconselhar de forma sábia.

É vital que Trump cumpra estas etapas rapidamente, para que a sua administração possa começar com o pé direito. Só aí poderá esperar não só cumprir os compromissos assumidos para os primeiros 100 dias de mandato, mas também - e mais importante ainda - começar a acalmar o medo e a raiva que a sua campanha provocou.

Todos os legisladores – contra ou a favor de Trump, republicanos ou democratas - devem participar plenamente nos esforços para reduzir as tensões, melhorar a cooperação e proteger o sistema político dos Estados Unidos. Devem reconhecer que o país é hoje um barril de pólvora. A altura de brincar com o fogo acabou. Cabeças frias devem prevalecer.

As empresas, a cultura e os sectores sem fins lucrativos, bem como a imprensa e os especialistas, devem permanecer calmos, resistir à tentação da hipérbole e das tácticas de intimidação, e olhar para um futuro partilhado. Mais importante ainda, os líderes comunitários não devem permitir que os seus eleitores sejam manipulados ou incitados a um comportamento que arrisque perigosos efeitos em cadeia.

A julgar pela longa história de Trump como figura pública, a ideia de que ajudaria a superar as divisões nos Estados Unidos parece provavelmente ridícula. O seu discurso de vitória incluiu o compromisso tradicional de ser "o presidente de todos os americanos". O povo americano precisa de o agarrar a esse sentimento - e de se agarrarem a si próprios. Alguns - na verdade muitos - nunca o apoiarão; mas é a sua função, como presidente, chegar a todos e apelar aos valores partilhados do país.

Ser presidente e candidatar-se à presidência requer competências muito diferentes. O presidente eleito Trump deve usar os seus primeiros 100 dias no cargo não apenas para fazer nomeações e priorizar a legislação, mas também para estabelecer um tom tranquilizador para a sua administração. Estabilidade e confiança devem estar na ordem do dia.

No seu segundo discurso inaugural, após um período de extrema divisão e guerra civil, Abraham Lincoln declarou: "vamos esforçar-nos" e "curar as feridas da nação". Trump não é Lincoln, mas invocou o mesmo espírito no seu discurso de vitória. Esperamos que tenha falado a sério.

 

Lucy P. Marcus é CEO da Marcus Venture Consulting.

 

Copyright: Project Syndicate, 2016.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

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