Fernando  Sobral
Fernando Sobral 25 de julho de 2017 às 00:01

Um país de cigarras

Um dos fundadores da democracia e um dos mais sábios legisladores de Atenas foi Sólon. Diz-se que um dia, num teste sobre o juízo, lhe pediram para remover a melhor e a pior parte de um animal sacrificado.

Sólon só escolheu uma: a língua. A língua é a fonte de todas as virtudes e pecados dos seres humanos. Seja na vida pessoal, na política, na saúde ou na agricultura. Os lapsos linguísticos fazem parte da vida. Em Portugal, claro, eles servem sobretudo para anestesiar a asneira ou o arrependimento. A língua desculpa o que a língua disse. Em Portugal, há pouca língua franca quando se chega à política. Há mais língua fraca. Os últimos dias têm sido anafados em termos de língua: umas vezes porque é utilizada a mais e outras porque é utilizada a menos. Nos incêndios evoluiu-se na estratégia de comunicação: agora só há um dono do megafone. A verdade a que temos direito está agora nas mãos da Autoridade Nacional de Protecção Civil. Um qualquer Ministério da Verdade está a ser instituído de forma tosca. É, no fundo, a sequência lógica da trapalhada comunicacional sobre Tancos: passou-se de um crime grave para um ferro-velho sem valor em meia dúzia de dias. E de um investimento forte em Tancos para a desactivação dos paióis no sítio. Se há lógica em tudo isto, é uma batata.

 

Não está melhor a oposição. A forma como o PSD tratou as populistas afirmações do modelo televisivo André Ventura mostram que a fábula da cigarra e da formiga, que Passos Coelho distribuiu com carinho no Chão da Lagoa, não tem destinatário fixo: é uma castanha que rebenta em todas as mãos. Passos perguntou, candidamente: "Quem é que criou a resolução do Banif? Não foi o sr. António Costa?" Num coro digno de Gil Vicente poderia cantarolar-se: "Quem é que criou a resolução do BES?" Ou seja, num país de cigarras (algumas delas tentando mascarar-se de formigas), o que é que sobra? Conversa fiada, uma espécie de sopa da pedra de tudo o que já ouvimos em diferentes contextos. E é assim que caminhamos alegremente para as autárquicas.

 

Grande repórter

A sua opinião5
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar
comentários mais recentes
Um pais de Ladroes isso sim. 25.07.2017

A corja dos enganos que os jornalecas ajudam a fazer branqueando as jogadas dos vigaristas, banqueiros&capangas. Os que fizeram estas crises para nos roubarem sem um nao da justica cega dirigida pelos saloios ja bem pagos pelo pobres, que que sao as vitimas.

ahah 25.07.2017

Meter no mesmo saco o bes e o banif não faz sentido, o 1º o governo pafista teve tempo de sobra para encontrar uma solução melhor (veja-se o desastre do Novo banco), no Banif o Passos e a Luisinha tiveram tempo de sobra para encontrar uma solução mas não quiseram sabe-se la porquê? até se sabe....

Mr.Tuga 25.07.2017

Excelente!

LOLOLOLOLOL 25.07.2017

O COELHO TIROU UMA LICENCIATURA AOS 40 ANOS

ver mais comentários