Fernando  Sobral
Fernando Sobral 06 de novembro de 2017 às 19:31

Um país provisório

Portugal é um país provisório. Onde se resolve tudo à última hora ou mesmo um pouco depois, quando se descobre, de forma trágica, que Ícaro se aproximou demasiado do Sol e as asas estão a arder.

Nos últimos anos, o país tem-se comportado como um treinador que não estuda o jogo e que, quando está a ser goleado, tenta desesperadamente mudar de táctica. Viu-se isso quando estávamos com um pé na bancarrota em 2011, após José Sócrates ter imaginado que era Midas. Só que transformou tudo em chumbo. E voltámos a caminhar sobre areias movediças, como é cíclico em Portugal. Depois da euforia alucinada, vem a ressaca realista. Nada aprendemos, é certo. Os incêndios deste ano, catastróficos, são o resultado deste estado que foi definido há muito pelos nossos pais e avós que ora fumavam "Provisórios", ora "Definitivos". Anos de inacção estatal, de despovoamento, de decisões florestais erradas, de incúria e de desinvestimento na prevenção deram no que se viu. Um calor e seca extremas conduziram ao caos. Tudo previsível. Mas como neste país se actua só depois dos desastres, nada que admirasse muito. Estamos a vinte mil léguas submarinas de um país com estratégia. E não caminhamos para a ter.

 

O anedótico caso de Tancos mostra como este país, às vezes, assemelha-se a uma versão pobre de um "reality show". Quando se vê alguém que é acusado de ser chefe de Estado-maior do Exército feliz e contente a dizer que tinha recebido uma caixinha de bónus dos "assaltantes", parece que tudo não passou de uma brincadeira. Quando o que ficou em causa foi a instituição militar de que ele é o chefe e o Estado. Um país não renasce só porque se paga a dívida e os credores ficam satisfeitos. Precisa de sair deste vazio existencial que cria situações de bancarrota ou de incêndios que parecem o apocalipse. A crise de pensamento é a questão central nacional. Porque todos estes acontecimentos são filhos desse vazio intelectual. A ferrugem que corrói o nosso presente e futuro.

 

Grande repórter

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