Baptista Bastos
Baptista Bastos 25 de Novembro de 2016 às 10:59

Um pouco antes de escrever

As coisas, por vezes, não me percorrem: assaltam-me e sinto-me muito só e magoado. Sempre vivi entre a premonição da fuga e o desgosto de estar só.
O sol bate em cheio no prédio em frente e ouço fragmentos de conversas que provêm da rua. Gosto muito desta hora da tarde e, antes de me sentar à frente do computador, tenho por hábito colocar-me por trás do vidro amplo e observar quem passa na rua. Não faço juízos de valor, mas, às vezes, invento histórias sobre quem passa lá em baixo. Vivo há quase vinte anos nesta casa perfumada com os perfumes dos corpos de quem a habita. Nunca vivi tão bem. A casa é ampla, tem um corredor que vai dar à porta, e os ruídos do interior e da rua embalam o meu coração desassossegado.

Escrevo devagar, acerca de coisas com as quais sonho ou junto das quais vivi. Nesta etapa da vida, a ideia da presença dos meus três filhos e dos meus dois netos é quase impositiva. As coisas, por vezes, não me percorrem: assaltam-me e sinto-me muito só e magoado. Sempre vivi entre a premonição da fuga e o desgosto de estar só. É quando escrevo. Não escrevo acerca de tudo, mas é o suficiente para que me entendam. Ou para quem me queira entender.

Aprendi que a vida não é um mar de rosas e que, por vezes, ia a escrever e, ocasionalmente, aconteciam-me e ainda me acontecem coisas dilacerantes. Mas passo logo adiante. Restam-me as memórias, os factos e os acontecimentos, e essas e esses não são nunca sepultados. Comecei logo de muito novo a ter de conhecer e de enfrentar a solidão. Foram as ruas e os amigos de então, o Descasca Milho, os irmãos Baltazar, o Daciano, outros, que ajudaram a sepultar a minha dor. Mas eu não sentia essa dor: nem sequer a adivinhava.

Há muitos anos, escrevi sobre eles: estava a envelhecer e precisava de os lembrar como uma espécie de salvação interior. E também recordei as miúdas que me haviam animado e querido. Sei o nome de todas ou de quase todas. Tinha esquecido os seus nomes, mas eles regressaram, com episódios por mim julgados abandonados e sepultos. Aprendi que nada, nenhum facto, nenhum episódio, dito ou feito, é olvidado para sempre. Regressam sempre. De um modo ou de outro, basta a ideia de uma voz antiga para a memória desbobinar o assunto que lhe diz respeito.

Ninguém está só e ninguém, no fundo, morre: o cérebro possui reservas por vezes inexploradas, que se reavivam, e, em certas alturas e ocasiões, suportam a nossa dor. Por exemplo, à minha frente está o último retrato de solteira da minha mãe, a Vicência, morreu nova e espantada com o que lhe estava a acontecer. Por vezes, dá-me a impressão de que sorri longamente para mim. E eu quase a esqueci, nem sei o tom e a tonalidade da sua voz. Houve uma altura, há muitos, muitos anos, que acordava sobressaltado, parecia ouvi-la. Nunca contei isto a ninguém: só agora e não sei porquê.

Lembro-me mais da minha avó e do meu tio Zé Inácio, casado com a minha tia Lucinda. Tudo guardado e resguardado na memória. Não perdoo muitas coisas, nem muitas pessoas pertencem ao rol dos meus afectos. Esqueci-as. Só de vez em quando as revejo, sem desprezo e sem afecto. Quando me sinto muito só revivo alguns desses factos antigos e desses acontecimentos nefastos. Talvez um dia escreva sobre eles. Talvez. Agora, tenho de escrever a crónica habitual da semana.


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mais votado surpreso Há 1 semana

Tão fofo ,o BB.Com Abril a govenar,já não vale a pena agredir Passos Coelho. Velho e velhaco

comentários mais recentes
surpreso Há 1 semana

Tão fofo ,o BB.Com Abril a govenar,já não vale a pena agredir Passos Coelho. Velho e velhaco

Di/di /leto Há 1 semana

Se o homem não tem na sepultura a esperança /é como o bicho que morre e deixa a pele sem funeral / ambos são de água feitos mas a esperança faz o homem mais do que animal/ a sepultura é a depositária da esperança onde aquele que dorme espera a mudança

Legru Há 1 semana

Muitas vezes aqui sou crítico das suas opiniões, principalmente quando de cariz político. Hoje gostei da sua crónica, talvez porque o tema também a mim diz respeito (velhice).
Aconselho-o a continuar nesta senda e a deixar-se das politiquices que, em nada, lhe acrescenta valor.

jose Há 1 semana

nada melhor que ter o PCP a aprovar os orçamentos da nação, para o Baptista-Bostas dar um pouco de descanso aos seus ódios de estimação! acabou a miséria e acabaram as injustiças e o Sistema Nacional de Saúde que a direita tinha sepultado, afinal está bem vivo e de boa saúde!

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