Anatole Kaletsky
Anatole Kaletsky 17 de abril de 2017 às 14:00

Um retorno importante para a Europa

Se as eleições deste ano resultarem num presidente francês centrista e num ressurgimento da cooperação franco-alemã, o fascínio inesperado da UE com o fundamentalismo de mercado provavelmente terminará.

Os holandeses são famosos por construírem diques que travam as correntes e tempestades que varrem o Atlântico. Terão voltado a fazê-lo agora, travando a onda de política populista que parecia ameaçar a Europa após o referendo do Brexit do ano passado e a vitória de Donald Trump nos Estados Unidos?

 

O desempenho inesperadamente fraco do Partido da Liberdade de Geert Wilders (PVV) nas eleições holandesas de 15 de Março parece sugerir isso mesmo. Apesar de as sondagens terem apontado para 25% dos votos para Wilders, o PVV conseguiu apenas 13%. Se os eleitores nas próximas eleições presidenciais francesas se mostrarem mais próximos dos holandeses do que dos americanos e britânicos na sua susceptibilidade à xenofobia e ao proteccionismo, a sua decisão terá implicações globais para a política, economia e para a ideologia do capitalismo global.

 

Uma viragem ao centro na Europa continental sugeriria fortemente que as vitórias inesperadas dos movimentos populistas e anti-globalização nos EUA e no Reino Unido não foram primordialmente uma resposta ao desemprego e ao desempenho económico decepcionante desde a crise financeira, a migração em massa ou a ameaça do terrorismo islâmico. Esta conclusão decorre do facto de França ter tido um desemprego muito mais elevado e uma recessão pós-crise mais longa do que os Estados Unidos ou o Reino Unido, assim como mais problemas com o terrorismo e a militância islâmica.

 

Se os eleitores alemães no outono seguirem os franceses e os holandeses no recuo em direcção ao centro político, a imigração também será desacreditada como a raiz do populismo. Afinal, a Alemanha tem tido um influxo muito maior de estrangeiros do que o Reino Unido ou os EUA. Em vez disso, o populismo parecerá mais um fenómeno anglo-saxónico, menos motivado pela imigração e pela política económica do que por atitudes culturais conservadoras entre os defensores de Trump e do Brexit e alianças demográficas invulgares que colocam velhos contra novos, rurais contra urbanos, eleitores licenciados contra pessoas com menos formação nos Estados Unidos e Reino Unido. 

 

As implicações económicas também serão de longo alcance se o centro vingar na Europa. A União Europeia é um parceiro comercial maior do que os EUA para a maioria das economias emergentes. E o euro é a única alternativa real ao dólar como moeda internacional. Assim, o compromisso contínuo da UE com uma filosofia de comércio aberto, globalização e redução do carbono poderia ser suficiente para impedir uma mudança de paradigma para o proteccionismo e a negação das alterações climáticas que parecia quase inevitável com a eleição de Trump.

 

Uma mudança desse nível na liderança global exigiria uma melhoria significativa no desempenho económico da Europa. Felizmente, pode esperar-se esse resultado se os eleitores rejeitarem a política populista em França e na Alemanha. A UE sofreu uma recessão económica prolongada desde a crise financeira de 2008, em grande parte porque o governo alemão vetou o tipo de estímulos monetários e orçamentais que ajudaram a retirar os EUA da recessão em 2010. O veto da Alemanha à flexibilização quantitativa ao estilo americano também foi o principal motivo do quase colapso da moeda única em 2012.

 

Mas uma grande mudança na política europeia e nas condições económicas ocorreu em Março de 2015, quando o Banco Central Europeu lançou tardiamente um programa de compra de títulos semelhante ao da América, mas numa escala muito maior. Ao comprar quase três vezes a emissão líquida total de obrigações da Zona Euro, o BCE contornou eficazmente as regras da Zona Euro e começou a monetizar os défices dos governo europeus e a criar um sistema de apoio mútuo entre economias fortes como a Alemanha e as mais fracas como Itália e Espanha.

 

As acções do BCE reverteram rapidamente a fragmentação do sistema bancário europeu e eliminaram os receios de um colapso do euro. O resultado imediato foi um aumento da confiança entre empresas e consumidores.

 

No verão passado, a maior parte da Europa já estava a desfrutar de uma recuperação decente, quando receios renovados de desintegração, desta vez causados pela política, e não pelas finanças, sobrepuseram-se subitamente à melhoria das condições económicas. O Brexit e Trump criaram a expectativa de que a Europa seria o próximo dominó a sucumbir ao populismo nas eleições holandesas, francesas e alemãs.

 

Naturalmente, esta possibilidade ainda não pode ser descartada, razão pela qual os investidores internacionais continuam cautelosos em relação à Europa. Mas se as vitórias populistas que preocupam os investidores não acontecerem de facto, o aumento da confiança nas empresas e nos consumidores enviará ondas de investimento para a Zona Euro.

 

O evento-chave será a última volta das eleições francesas a 7 de Maio. Se resultar na vitória do centrista Emmanuel Macron, França vai embarcar num caminho que conduzirá a, pelo menos, algumas reformas económicas.

 

Isso, por sua vez, criará uma relação muito mais cooperativa entre França e a Alemanha. Os dois principais candidatos ao cargo de chanceler da Alemanha estão ansiosos para reconstruir a Europa pós-Brexit, reforçando o eixo franco-alemão - e o início de um processo de reforma francês tranquilizaria os eleitores alemães de que o seu governo, aliviando a austeridade da UE, não estaria a deitar dinheiro para um poço sem fundo.

 

Isso leva-nos às implicações ideológicas se as forças centristas ganharem e a recuperação económica acelerar na Europa este ano. No rescaldo imediato da crise financeira global, o modelo de capitalismo europeu do "mercado social" parecia uma alternativa lógica ao fundamentalismo do mercado Thatcher-Reagan que se desmoronara após 30 anos de domínio global. Na verdade, o presidente Barack Obama conduziu os EUA para um maior activismo do governo na gestão macroeconómica, regulação financeira, política ambiental e cuidados de saúde.

 

Paradoxalmente, porém, a Europa caminhou na direcção oposta. Sob a pressão alemã, a UE tornou-se o último bastião do monetarismo, da austeridade orçamental e do papel "disciplinador" dos mercados financeiros. O resultado foi a quase fatal crise do euro de 2010-2012.

 

Se as eleições deste ano resultarem num presidente francês centrista e num ressurgimento da cooperação franco-alemã, o fascínio inesperado da UE com o fundamentalismo de mercado provavelmente terminará. A Europa desfrutará de uma recuperação económica melhor, mais sustentável e socialmente inclusiva do que os Estados Unidos sob a liderança de Trump. Se isso acontecer, o resto do mundo poderá voltar a olhar para a UE como um modelo e uma fonte de inspiração.

 

Anatole Kaletsky é economista-chefe e co-chairman da Gavekal Dragonomics e o autor de Capitalism 4.0, The Birth of a New Economy.

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

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