Miguel Luzárraga
Miguel Luzárraga 07 de julho de 2017 às 19:00

Um vislumbre de melhoria da situação política na Europa?

Parece ter aumentado bastante a incerteza sobre a futura política do Reino Unido em relação ao Brexit, e eventualmente em relação a muitos outros temas. Para os investidores, a grande mensagem é a seguinte: cuidado com esta região.

Os investidores entraram em 2017 cheios de desconfiança no que à Europa diz respeito. Após vários anos de fraco desempenho em relação aos Estados Unidos, não estavam prestes a apostar novamente num mercado que tem sido uma deceção permanente, nomeadamente numa altura em que se antevia tanta incerteza política. Mas alguns meses podem fazer toda a diferença. Os eleitores holandeses e os franceses seguiram o exemplo dos austríacos rejeitando candidatos populistas anti-euro, e o risco de sucesso para os partidos extremistas da Alemanha nas eleições de setembro é insignificante.

 

A Itália ainda se perfila no horizonte como uma importante fonte de incerteza e o Reino Unido ainda tem de enfrentar a perspetiva de um Brexit "difícil" após as eleições legislativas. Mas a vitória de Emmanuel Macron nas eleições presidenciais francesas realizadas em maio oferece uma possibilidade de fortalecimento das relações entre a França e a Alemanha, o que permite antever que, desta feita, a alteração do xadrez político da Europa poderá ter efeitos benéficos. Pelo menos, esta alteração "limpa o ar", permitindo aos investidores concentrarem-se melhor nos fundamentos da melhoria da Zona Euro.

 

A grande questão continua a ser a economia e os lucros das empresas europeias, que estão a ganhar ritmo, tendo ultrapassado os EUA no primeiro trimestre de 2017. Mas, dado que a Europa anda associada a risco político na cabeça das pessoas há tantos anos, vale a pena perguntar o que é que correu bem na política europeia desde janeiro e quais as respetivas implicações para os investidores.

 

O presidente Macron não teve muito tempo para saborear a sua vitória, pois não conseguirá implementar grande parte da sua agenda política se não obtiver uma maioria, ou uma coligação viável, das próximas eleições legislativas. Historicamente, os franceses têm votado no sentido de dar a maioria absoluta na Assembleia Nacional ao partido do presidente recentemente eleito. Devido à fraqueza dos dois partidos historicamente mais fortes e ao fato de muitas pessoas terem votado em Macron por razões estratégicas, não podemos assumir que voltará a acontecer o mesmo. Mas o novo presidente conseguiu chegar a pessoas de ambos os lados do espetro político para formar o seu gabinete. Mesmo que o Sr. Macron não ganhe uma clara maioria, os cenários mais prováveis após a eleição apontam para a constituição de um governo mais reformista, o que deverá ser positivo para a França e para os investidores a médio prazo.

 

De acordo com os dados atuais, a economia alemã está numa posição confortável. A taxa de desemprego apresenta um dos valores mais baixos de sempre (3,9%), o orçamento está equilibrado, e as exportações líquidas apresentam um dos valores mais altos de sempre. No início do ano, parecia que o novo líder social-democrata, Martin Schulz, estaria em boa posição para conduzir a esquerda tradicional do partido do centro à vitória nas eleições de setembro. No entanto, as recentes eleições estaduais não confirmaram esta tendência, e agora aposta-se na continuidade da chanceler Merkel após as eleições, provavelmente à frente de uma coligação semelhante.

 

Alguns decisores políticos europeus esperavam que uma vitória do SPD pudesse acarretar uma política orçamental ligeiramente mais expansionista na Alemanha e talvez uma abordagem mais pró-ativa à reforma da Zona Euro. Mas a descida do partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha nas sondagens garante aos investidores que o populismo não está a ganhar força na economia mais importante da Europa.

 

A Itália continua a ser uma importante fonte de preocupação política para a Europa, e com razão. É o único grande país na Zona Euro onde o apoio popular à adesão à moeda única é inferior a 50%. Não pode descartar-se a possibilidade de realização de eleições antecipadas, e a verdade é que apenas um dos quatro principais partidos políticos do país apoia de forma ativa a adesão da Itália à Zona Euro.

 

Trata-se, de facto, de uma perspetiva preocupante, relativa a uma grande economia europeia, que detém um dos maiores montantes de dívida pública do mundo. Mas a realização de eleições antecipadas em Itália parece improvável, numa altura em que caminhamos para o verão, nomeadamente devido à falta de progressos na aprovação de uma nova lei eleitoral única para as duas câmaras do Parlamento.

 

Para bem ou para mal, as próximas eleições em Itália poderão agravar a fragmentação da política italiana, o que não seria útil do ponto de vista do investimento, porque dificultaria as reformas importantes e aumentaria a probabilidade de continuação da incerteza política. No entanto, também seria muito mais difícil a qualquer partido retirar o país da Zona Euro.

 

No resto do continente, todas as boas notícias a nível político e económico ajudaram a fomentar as ações da Zona Euro nos últimos meses, tendo o retorno total do principal MSCI EMU (Eurozona) ultrapassado o mercado dos EUA (S&P 500) em dólares e na divisa local, desde o início de 2017, o que aconteceu pela primeira vez em muitos anos. No entanto, isso não se repercutiu a nível de fluxos monetários. Na verdade, cerca de metade dos fluxos de capital próprio proveniente das ações europeias em 2016 ainda não retornaram.

 

Nunca há certezas quando se trata da política europeia, e os problemas a longo prazo com que o presidente Macron e outros deverão lidar são imensos. Mas agora o sol está a iluminar a economia da Europa, e a política poderá até estar em posição de ajudar. Podemos olhar para trás e dizer que o maior risco que os investidores enfrentaram na Europa em 2017 foi o risco de agarrar a oportunidade demasiado tarde.

 

Eleições no Reino Unido: Não era este o resultado que os mercados esperavam

 

Não era este o resultado que os mercados financeiros — e Theresa May muito menos — esperavam. Em vez de uma maioria conservadora mais alargada, como a primeira-ministra pretendia, o Reino Unido fica com um parlamento dividido, no qual nenhum partido está em condições de assumir o controlo geral, dias antes do início das negociações para o Brexit, previsto para 19 de junho. O partido de May irá castigá-la mais tarde ou mais cedo.

 

Para os mercados financeiros, a lição não é assim tão evidente. Os investidores, obviamente, não gostam de incertezas, nem lhes agrada a provável perspetiva de novas eleições gerais a seu tempo. No entanto, também não veem com bons olhos a perspetiva de um Brexit complicado, com o Reino Unido fora do mercado único e da união aduaneira da UE, como May prometeu.

 

Impacto a nível cambial e nos mercados

 

De um dia para o outro, a libra caiu quase 2% em relação ao dólar, depois de a sondagem à boca das urnas que foi publicada no final da votação ter inesperadamente indicado um parlamento dividido. O FTSE All Share ganhou após a abertura do mercado. A desvalorização da libra acarreta maiores lucros a curto prazo para muitas das grandes empresas do FTSE 100 que dominam o FTSE All Share, cuja maior fatia de lucros provém do exterior. O índice de média capitalização (FTSE 250) sofreu uma ligeira descida.

 

A desvalorização da moeda, de modo geral, foi favorável para o principal índice de ações no ano passado, e poderemos muito bem vir a assistir à repetição desta correlação nas próximas semanas. No entanto, as ações do Reino Unido poderão continuar a ser inferiores às dos restantes mercados desenvolvidos, sobretudo na Zona Euro. O índice MSCI Eurozone aumentou quase 20% desde o início do ano, cerca de duas vezes mais do que o FTSE All Share em dólares.

 

Já vivemos dias de incerteza sobre a futura composição do governo anteriormente, após as eleições de maio de 2010, quando os conservadores demoraram quase uma semana a formar uma coligação governamental. Nessa altura, os mercados financeiros estavam sobremaneira calmos. Mas isso passou-se na sombra da crise financeira global, quando a Zona Euro estava em turbulência. Atualmente, a situação está a melhorar de mês para mês para lá do Canal da Mancha, enquanto sobre o futuro do Reino Unido paira uma profunda incerteza, que é da exclusiva responsabilidade dos britânicos.

 

O Reino Unido foi uma das poucas economias a sofrer um corte na sua previsão de crescimento nas últimas estimativas da OCDE. O mesmo relatório mostrou igualmente que é a única grande economia desenvolvida que irá restringir significativamente a política orçamental nos próximos dois anos. Do ponto de vista político e económico, o Reino Unido está a destoar dos restantes mercados.

 

Implicações a nível de investimento

 

As questões mais importantes para quem investe no mercado britânico são o ritmo e a forma do Brexit, a posição a curto prazo em termos de política orçamental e monetária e a força subjacente da economia do Reino Unido. As perspetivas a curto prazo relativas à economia e à política monetária não sofreram qualquer alteração com este resultado surpreendente. Mas parece ter aumentado bastante a incerteza sobre a futura política do Reino Unido em relação ao Brexit, e eventualmente em relação a muitos outros temas. Para os investidores, a grande mensagem é a seguinte: cuidado com esta região.

 

Executive Director e Senior Sales Executive da JPMorgan AM

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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