Manuel Fortes
Manuel Fortes 09 de Outubro de 2016 às 12:00

Um novo desafio para a banca chamado IFRS9

O setor financeiro, nos últimos anos, tem vindo a ser alvo de profundas transformações que têm levado os bancos a repensar a sua forma de atuação.

A imposição de novos requisitos e exigências, com implicações a variados níveis, nomeadamente no seu modelo de negócios, tem vindo a pautar a realidade bancária dos últimos tempos. Por parte dos reguladores ouvem-se promessas de que é para melhorar o sistema financeiro do mundo e garantir a sua estabilidade e maior transparência, do lado bancário unem-se esforços para que os rigorosos critérios qualitativos e quantitativos sejam cumpridos.

 

A IFRS9 é o nome da nova norma a entrar em vigor dia 1 de janeiro de 2018 (com possibilidade de adoção antecipada) e que, tal como as anteriores, promete impactos significativos. Os bancos estão já a preparar-se para o que aí vem, de forma a estarem aptos para uma vez mais responder aos novos critérios contabilísticos. Em causa está a necessidade de resolver um problema reconhecido por todos: as perdas de crédito, cuja existência está relacionada com o facto de os atuais requisitos de imparidade se basearem em modelos de perda incorrida.

 

A IFRS9 propõe então uma nova abordagem, através da qual as instituições financeiras passam a ser capazes de reconhecer as perdas antes da sua ocorrência. Em suma, a IFRS9 vai introduzir um modelo baseado em expetativas futuras ou perdas de crédito esperadas.

Ora, por um lado, com o intuito de modelizar as tendências futuras do mercado, os bancos vão precisar de dados macroeconómicos que anteriormente não foram exigidos (o que conduzirá à utilização de fontes de dados adicionais), por outro, esta previsão de perdas futuras vai gerar uma vasta quantidade de dados pois os bancos vão ter de definir segmentos de risco, projetar para determinado contrato o seu comportamento futuro, ou seja, projetar os fluxos de caixa, calcular diferentes parâmetros de risco para cada horizonte temporal que dependem de modelos e de cenários macroeconómicos.

 

Desta forma, torna-se absolutamente prioritário o devido tratamento e cruzamento de todos os dados entretanto gerados, podendo considerar-se este o outro desafio trazido pela IFRS9. Mais do que nunca, as instituições bancárias terão de estar preparadas para este "boom" de dados que terá implicações que vão tocar em áreas tão diferentes como a financeira, o risco, a auditoria, a tecnológica, etc.

 

Assim, a par da pertinente questão que se tem levantado sobre a forma como a IFRS 9 irá interagir com o Acordo de Basileia III, lanço uma outra: terão os bancos suporte tecnológico suficiente para conseguirem reunir todas as exigências que os levem a estar em total conformidade com esta nova norma? E de que forma vão poder estimar impactos futuros das decisões que hoje tomam, compreender os "drivers" que justificam a volatilidade dos níveis de provisão que serão exigidos? Que tipo de controlos terão de ser implementados para garantir que os resultados obtidos são fiáveis?

 

Diria que o mercado financeiro tem pela frente um desafio: a capacidade de calcular as perdas de crédito esperadas sendo que, por trás deste, está outro não tão visível, mas igualmente importante: a capacidade de tratar e gerir os dados que serão produzidos, bem como os modelos prospetivos, passo essencial para uma rápida e assertiva tomada de decisões. Neste contexto, o analytics ganhará força e terá de haver, forçosamente, um maior alinhamento dos dados, modelos e reporte entre todas as áreas do banco.

 

Com esta nova norma e perante um desafio tão complexo, as instituições bancárias vão com certeza ver-se obrigadas a alterar não só a forma como estão organizadas, mas também a repensar metodologias, estratégias e as suas capacidades tecnológicas.

 

Business Development para Risk Management do SAS

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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Anónimo Há 4 semanas

Muito pertinente este artigo, e muito bem escrito