Fernando Ilharco
Fernando Ilharco 06 de Outubro de 2016 às 20:04

Um prémio Nobel dá anos de vida

Além de um milhão de dólares, o vencedor de um prémio Nobel ganha dois anos de vida, a acreditar num estudo sobre o efeito do estatuto profissional e social na longevidade.

Esta investigação, publicada no Journal of Health Economics, surge na sequência de trabalhos do mesmo género sobre os vencedores dos Óscares de Hollywood. Um primeiro estudo de 2001 indicava que os premiados nos Óscares vivem em média mais quatro anos do que os nomeados para o prémio, mas que nunca o ganharam. E quem ganha mais do que um Óscar vive em média mais seis anos do que os simplesmente nomeados. Estudos posteriores têm quer contestado quer apoiado estas conclusões, centrando-se o debate sobretudo em questões estatísticas.

 

O estudo sobre os prémios Nobel, realizado por investigadores da Universidade de Warwick, em Inglaterra, que recolheu dados desde o século XIX sobre os nomeados e os vencedores dos prémios Nobel da Física e da Química, defende que existe uma ligação entre vencer o Nobel e ter uma maior longevidade. A investigação estuda o efeito do estatuto profissional ou social na longevidade; sobretudo o efeito da aquisição súbita desse estatuto. E a conclusão é clara: os vencedores de prémios Nobel da Física e da Química vivem mais um a dois anos do que os cientistas simplesmente nomeados.

 

Como é que uma distinção simbólica, muitas vezes uma questão de sorte, um prémio de um milhão de dólares, que muitas vezes os vencedores destinam a terceiros, pode ter um efeito tão positivo e tão claro?

 

Um Nobel, ou um Óscar, proporciona satisfação e é recompensador. A satisfação faz disparar a dopamina no cérebro, aumentando o prazer e proporcionando uma sensação agradável. Acontece em várias actividades, por exemplo, o atingir de objectivos difíceis ou ouvir um elogio significativo. Mas como proporciona o Nobel mais dois anos de vida?

 

A resposta parece estar na tranquilidade e na auto-estima. Um Nobel, tal como um Óscar, aumenta a crença que temos o controlo da nossa vida, o que nos ajuda a ter menos stress e a sermos mais confiantes e optimistas; o que, em si mesmo, faz bem à saúde. Não se trata de controlar de facto a nossa vida, mas de acreditar que a controlamos.

 

O que faz a diferença é o facto de a ideia que temos de nós mesmos ficar a salvo do julgamento dos outros. No dia-a-dia, cada um é o que é conforme as acções e as reacções dos outros, que funcionam como um espelho que reflecte quem nós próprios somos. Um Nobel é um reflexo intenso, que dispara a auto-estima. É um seguro que protege dos comentários negativos. Protegendo, o Nobel dá tranquilidade, mais saúde e uma maior longevidade.

Resta saber porque um Óscar proporciona mais anos de vida do que um Nobel? Mas pode ser porque, em geral, os vencedores dos Óscares, no cinema, são mais novos do que os vencedores dos Nobel, na ciência.

 

E para finalizar, é de pensar se o que é válido para o Nobel e para os Óscares o será também noutras actividades para quaisquer trabalhos bem feitos, objectivos difíceis atingidos e desafios ultrapassados.

 

Professor na Universidade Católica Portuguesa

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