Pedro Lains 19 de outubro de 2011 às 11:46

Uma carta fora do baralho

Afinal, Portugal não é a Grécia. É o Chile. De há 30 anos. Não vamos apenas recuar no rendimento per capita, mas também na História, na integração europeia e, seguramente, na qualidade da democracia.
Afinal, Portugal não é a Grécia. É o Chile. De há 30 anos. Não vamos apenas recuar no rendimento per capita, mas também na História, na integração europeia e, seguramente, na qualidade da democracia. Em prol de quê? - Em prol de uma fé. E a troco de quê? - A troco de uma mão cheia de nada.

Deixem-me personalizar porque é caso para isso. Conheço o pensamento de Vítor Gaspar, porque várias vezes me cruzei com ele, em seminários, e porque ele se interessa por história económica e várias vezes entrámos em diálogo. Sempre concordámos em discordar. Também conheço o seu pensamento porque por onde ando há outros economistas assim, também dos bons. Posso talvez dizer que em cada 100 economistas ou historiadores económicos que conheço, cinco pensam como o ministro das Finanças e um é fora de série. A presença de um deles num debate é sempre fonte de animação.

Mas há dois grandes problemas. O primeiro é que estes economistas, no fundo, não estão muito interessados em causalidades. Estão mais preocupados com equilíbrios. Não acham importante determinar se vem primeiro o ovo ou a galinha. Há um défice, um desequilíbrio? Corrija-se. Mas as causas são… Não interessa, corrija-se para recuperar a confiança, criar um círculo virtuoso e restabelecer o crescimento. Onde foi isso visto? Aqui e ali. Mas como prova que a recuperação foi o resultado da contracção, se o mundo entretanto mudou? Porque a teoria assim o diz.

O segundo problema, porventura maior, muito maior, é que esses economistas não chegam, nem perto nem longe, aos governos dos países avançados e europeus como Portugal. Os ministros das Finanças europeus são políticos, não teóricos e sobretudo não teóricos da fasquia dos 5%, brilhantes, é certo, de Vítor Gaspar. Quanto muito chegam a governadores de bancos centrais. Tivemos azar.

E tivemos azar por culpa de muita gente e, em última análise, do actual primeiro-ministro. Ele ouviu à saciedade que era preciso "mudar o rumo", que vivíamos "acima das possibilidades", que era preciso um "corte radical com o passado". E acreditou nisso tudo. Primeiro, acreditou nas "gorduras do Estado" - até ver que as havia, mas que eram macroeconomicamente marginais. Ficou sem eira nem beira. Até que Vítor Gaspar lhe apresentou um plano, o único plano que havia para pôr tudo em linha como recorrentemente lhe pediam.

O plano de Vítor Gaspar já chocou muita gente, porque é chocante. E não o fez só à esquerda, pois o PSD também ficou chocado e muito. Mas não se consegue mexer. Nem o PS. A principal razão porque o plano é chocante é que ele assenta numa carta que não estava no baralho: a contracção sem limites de salários - e mais aumento de impostos. Assim qualquer um sabe governar.

Passos Coelho não parece ter percebido o que se estava a passar, como revelam duas das suas declarações. A primeira foi quando disse que os funcionários públicos "ganham mais 10 a 15% que trabalhadores privados". Sim, ganham, mas não todos e porque os de rendimentos mais baixos ganham mais e as mulheres ganham o mesmo que os homens.

Se queria corrigir essa "injustiça" teria de ter feito de outro modo. E não podia, pois tinha de ir aos salários mais baixos. A segunda foi quando disse que a medida era para dois anos, o que o ministro das Finanças prontamente desmentiu. Obviamente. Um choque destes para durar tem de durar. Não há milagres.

Ou seja, este Orçamento equilibra as contas, segundo o memorando da troika, à custa de uma contracção permanente, feita num acto, brutal, do rendimento disponível. E a troco de quê? Já lá vamos.

Passos Coelho ainda será dos poucos que acredita que a culpa disto tudo não é dele, que "não tem de pedir desculpa aos portugueses". Vítor Gaspar já sabe que não, claro. A dimensão do "ajustamento", como lhe querem chamar é de tal forma grande, é de tal forma brutal que, como é evidente, ultrapassa qualquer estrago que tenha sido feito pelo Governo anterior. Percebe-se esta lógica simples, não se percebe? Julgo que não é preciso ir mais longe.

O actual Governo, uma vez por todas, tem de assumir as suas opções. As suas opções radicais. E profundamente anti-europeias.

O mantra por trás destas opções é também, por seu lado, incompreensível. Trata-se de "recuperar a confiança dos mercados". Este mantra, dito em 2011, não revela uma completa falta de percepção do que se está a passar na economia internacional? Revela.

E, claro, ninguém com tanta fé notou que os mercados nada notaram sobre o que por cá se está a fazer. Inclusivamente, até podem responder negativamente, esses mercados, por causa da enorme contracção que aí vem, desta desgraçada economia.

Mas insistamos nos mercados e voltemos ao Chile. Nos anos 1980, um grupo de rapazes de Chicago entrou pela ditadura chilena adentro e "cortou com o passado", fazendo um "ajustamento profundo". Os pormenores não cabem aqui, mas quatro questões importantes cabem: o país era então uma ditadura; não estava integrado num espaço económico e monetário alargado; havia uma enorme taxa de inflação; e os mercados internacionais não estavam de rastos. E o desemprego subiu a perto de 25%, sem subsídios, claro, que isso é para os preguiçosos.

A estratégia de Vítor Gaspar, sufragada por Passos Coelho, é profundamente desactualizada e mesmo errada. Ela insere-se num quadro mental em que os gastos do Estado provocam inflação, quando estamos numa fase de baixíssima inflação; pressupõe o financiamento nos mercados internacionais de capitais, quando estes estão retraídos em todo o Mundo.

Há alternativa? Claro que há. A Europa não se gere pelos 5% de ideias económicas que infelizmente foram parar ao Ministério das Finanças. Nem de perto, nem de longe. Passos Coelho tem muito que aprender. Já está é a ficar sem tempo para o fazer. Vítor Gaspar tem um bocado de razão em pensar como pensa. É isso que acontece sempre, entre economistas. Mas deitou essa razão por borda fora, ao ir tão longe, tão fora da realidade do país, do euro e da Europa. Precisamos de recentrar o País, para o que convém começar por reconhecer as causas das coisas.



Economista, Instituto de Ciências Sociais
da Universidade de Lisboa
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comentários mais recentes
Dedicado 03.06.2012

O que Portugal pode começar a fazer é copiar a Holanda, roubando-lhe o negócio dos in-shores, também conhecida por sadwich holandesa. Não há problema nenhum pois eles também já nos roubaram várias vezes no passado, retribuir o "favor" até fica bem. E Portugal não deve ter grandes dificuldades neste tipo de negociatas, porque os dois grandes partidos estão cheios de trafulhas. Ora é só redirecionar a trafulhice para actividades lucrativas como faz a Holanda in-shore i.e dentro da Europa. Já viram os milhões que a Holanda ganha com a Google, ou a Volkswagen, a Ikea, nem vale a pena falr do PSI 20 ...é aqui que está a alternativa pois lá como cá, como alguém aqui disse também desindustrializaram.

pedrofvrito Há 2 dias

Fala fala fala, mas e alternativa? Ah pois é, essa é que ninguém é capaz de dizer.
Toda a gente fala em crescimento económico e tal... Mas, e como fazê-lo? E enquanto há falta de ideias para o crescimento económico, é preciso conter a despesa pública, porque não temos hipótese e está acima das nossas possibilidades.
Mas Sr. Lains, secalhar até há propostas para o crescimento económico, não há? Elas existem, mas todos se recusam a dizê-las...
Mas juntar a Europa, e o resto dos países e rediscutir a política económica de comércio livre mundial do WTO. É preciso redefini-la. As indústrias estão a sair da Europa e dos EUA e assim não economia que se escape da crise. Precisamos de emprego, e qualquer dia teremos que ir para a China para trabalhar. Porque cá, CÁ? NO RESTO DO MUNDO? Vamos ficar uns subsidio-dependentes, porque o emprego vai deixar de existir. Acordem para a realidade. Parem de discutir o "reconhecer as causas das coisas" que ninguém sabe o que é pelos vistos.
VAMOS REPENSAR O COMÉRCIO LIVRE MUNDIAL!!!
Ah, já agora, o 1º Ministro Pedro Passos Coelho não falou em cortes de subsídios durante 2 anos. Falou sim, durante a ajuda... Ora, a ajuda como sabemos pode bem demorar mais que 2 anos. Foi por isso que Vitor Gaspar não falou em 2 anos, mas também o 1º Ministro não o tinha quantificado. E o 1º Ministro, permita-me, também não falou em "funcionários públicos ganham mais 10 a 15% que trabalhadores privados", mas sim que ganhavam mais 10 a 15% que a MÉDIA NACIONAL, que conta com os próprios funcionários públicos. Por isso, antes de fazer estes textinhos, vá lá bem reler ou reouvir o que realmente as pessoas dizem.
Cumprimentos

fmarnoto Há 2 dias

O Sr. Lains esqueceu-se de referir que neste momento somos um país intervencionado por uma tal de Troika que vai pondo cá uns trocados a troco de certas condições impostas por eles.
O actual governo de Portugal é apenas o capataz e fosse qual fosse o governo tinha de aplicar estas medidas.
Veja a Grécia que tem um governo socialista e tem de cumprir as ordens da Trioka.
O seu artigo seria meritório se fosse dirigido a quem efectivamente governa o país.

viclion Há 2 dias

Este artigo, bem escrito sim senhor, enferma do mesmo mal de muitos. Crítico, irónico, quase convincente. Quase pois! Falta a alternativa! O que é que propõe? Tal como foi sublinhado no comentário de 19/10 23h03, estamos sem dinheiro...

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