André Macedo
André Macedo 11 de fevereiro de 2018 às 20:30

Uma casa milionária nos arrabaldes

O crédito à habitação disparou mais de 40 por cento no ano passado. As avaliações das casas, feitas pelos bancos para estender o respetivo cheque, também escalaram, deixando muito para trás os números pré-crise e sem relação alguma com o crescimento económico: o PIB aumentou, sim, mas não o suficiente para acomodar este triplo salto sem danos colaterais que mais cedo do que tarde serão visíveis.

O preço do metro quadrado nos arredores de Lisboa, por exemplo em Odivelas e na Amadora, em regra mais em linha com o baixo rendimento dos portugueses, acompanhou a trepidação e foi o que mais aumentou ao longo de 2017. Uma pesquisa rápida permite concluir que naquelas zonas há T3 à venda por mais de 400 mil euros, um valor que antes era apenas cobrado para conseguir outro tipo de centralidade. À volta do Porto o cenário é o mesmo: preços loucos por casa más e frias em zonas que deveriam acolher a classe média sem exigir um esforço mensal desproporcionado face ao que se ganha e até ao potencial de valorização.

 

A desculpa começou por ser a chegada em massa de estrangeiros, atraídos pela magnífica paz lusitana e pelo relativo bom tempo. O turismo parecia a justificação ideal, já que pelo caminho também ilibava os bancos. Os franceses, apenas para dar um exemplo, chegavam com dinheiro no bolso para aplicar e não tinham sequer de pedir crédito, o que deixava as instituições financeiras nacionais perante a necessidade - filha da Grande Recessão - de procurarem outro tipo de negócio que não o imobiliário, isto é, de começarem a dar crédito às empresas, que não as de construção, abrindo assim novas oportunidades à frágil economia portuguesa. Dito de outra maneira, ao desviar o dinheiro disponível para o imobiliário, perdem as outras atividades industriais e comerciais.

 

Mas o que os números mostram não é isso. Tentados pela gulosa bolha imobiliária, os bancos baixaram os spreads de 4 por cento para dois e agora já são poucos os que, bem conversados, não oferecem um por cento, financiando quase a totalidade da casa a prazos que chegam aos 40 ou até 50 anos. Uma bizarria nacional a que se junta a perigosa tradição, a de os negócios serem quase todos eles feitos a taxa variável.

 

A conclusão é relativamente simples: nos próximos anos, a probabilidade de as prestações subirem em flecha não é apenas uma hipótese, é uma certeza que ganha força a cada dia que passa - basta olhar para os juros cobrados em 2008 para antecipar a escalada que aí vem. Os tempos do dinheiro barato, com indexantes por vezes negativos, já foi chão que deu uvas e muita gente será apanhada na curva. Longe vão também os anos em que a inflação alta ajudava a despachar os empréstimos, convertendo o pagamento das hipotecas numa espécie de corrida de velocidade: os primeiros tempos eram realmente difíceis, mas ao fim de meia dúzia de anos a inflação neutralizava em parte o peso da dívida. Hoje, uma hipoteca é uma maratona, já não é um sprint, é uma carga que se carrega quase até perder de vista.

 

Ora bem, é neste exato momento em que o Banco de Portugal decidiu emitir recomendações aos bancos sobre prazos e condições de financiamento. A ideia é boa e mostra que o supervisor não quer cometer os mesmos erros do passado, em que pura e simplesmente não regulou nada nem ninguém. Só há um senão: o que os bancos precisam é de um aviso e não de uma simples recomendação. O aviso é a antecâmara de medidas mais drásticas e intrusivas, que é exatamente o que me parece adequado face à loucura que nos assola desde 2014. Num país com baixa inflação, com salários médios não superiores a 1200 euros e num negócio, o do imobiliário, onde a racionalidade dos compradores é tudo menos evidente... então o cuidado do supervisor tem mesmo de ser redobrado, canino e feroz, por muito que isto perturbe um certo tipo de liberais.

 

O preço das rendas poderia, no entanto, dar-nos alguma tranquilidade. Se elas estão altas, então isso significa que o preço dos ativos imobiliários é de facto alto (portanto, não especulativo), daí a escalada do metro quadrado ser natural e sustentável. Acontece que o mercado do arrendamento está também ele fortemente aditivado por esteróides anabolizantes. Os alugueres de curta duração para turistas, o famoso Airbnb, é o maior multiplicador do preço das rendas nas cidades. Há quem arrende casas para as subalugar ao dia ou à semana, dispondo-se por isso a pagar 2000 euros por mês ou mais por um imóvel que lhe trará uma receita - tantas vezes não declarada - muito superior a isso.

 

Perante isto, o que fazem as câmaras de Lisboa e do Porto? Estudam. Pensam. Mas não agem. E os deputados? Os deputados manifestaram a estupenda ideia de deixar a regulação do arrendamento de curta duração nas mãos dos condóminos dos prédios - a ideia mais fratricida e inviável de que há memória, além de ser um assustador sinal de desresponsabilização política. Quanto ao Governo, também ele estuda e reflete, enquanto os portugueses são chutados para os arrabaldes ou amarram-se alegremente à prisão perpétua da dívida, a maior das suas vidas.

 

Este artigo está em conformidade com o novo acordo ortográfico.