Pedro Santana Lopes
Pedro Santana Lopes 05 de julho de 2017 às 20:28

Uma cimeira complicada

Depois do ensaio na cimeira da NATO, este deverá ser o primeiro encontro de líderes mundiais em que se vai sentir de modo mesmo intenso a diferença de posições sobre temas relevantes da agenda mundial.

1. A chanceler Angela Merkel e o Presidente de França, Emmanuel Macron, estão a mostrar cada vez mais opções convergentes, mas numa ação política com dinamismo tal que parecem estar a disputar a liderança da Europa e do Mundo livre. Amanhã começa a cimeira do G20 e Angela Merkel, anfitriã em Hamburgo, não está com meias medidas e quer que seja reafirmada a adesão ao Acordo de Paris. Esta vontade da chanceler alemã constitui, obviamente, um desafio ao Presidente dos Estados Unidos da América, numa altura em que a Alemanha se aproxima cada vez mais das eleições legislativas marcadas para setembro. Esta firmeza de Merkel perante Trump deverá, seguramente, render-lhe dividendos eleitorais.

 

Essa situação difícil para o Presidente dos EUA coincide com a primeira vez em que Trump se vai encontrar com Vladimir Putin, pelo que não será de excluir que alguma matéria ligada à paz e à guerra, seja a Crimeia, seja outra, possa ser aflorada. Pelo meio, teremos a China que, por sua vez, deverá reafirmar a sua posição, já expressa em Davos, contra os novos protecionismos, nomeadamente o americano. Depois do ensaio na cimeira da NATO, este deverá ser o primeiro encontro de líderes mundiais em que se vai sentir de modo mesmo intenso a diferença de posições sobre temas relevantes da agenda mundial. É bom, aliás, lembrar que o próprio Emmanuel Macron, quando Donald Trump se desvinculou do Acordo de Paris em matéria ambiental, fez um discurso em inglês dirigido aos cidadãos e em especial aos cientistas que, sendo americanos ou trabalhando nos EUA, admitissem ir viver e trabalhar para França. No momento em que a ameaça da Coreia do Norte se acentua, estas divisões no mundo livre, para além do que se tem passado com a Rússia, não são confortantes.

 

2.Gostaria de evocar Simone Veil. Em 1987, fui o primeiro português eleito por sufrágio universal e direto para o Parlamento Europeu. O grupo dos deputados do PPD/PSD integrou então o Grupo Liberal e Democrático. O presidente do grupo liberal era exatamente Simone Veil e dele faziam parte também Michel Poniatowski, francês, e noutro plano, mas também interessante – sentado ao meu lado – Sergio Pininfarina, ligado à indústria automóvel, nomeadamente à Ferrari, entre outros. Simone Veil era uma líder com inegável carisma, com um feitio muito exigente e com uma enorme respeitabilidade. Tinha estado num campo de concentração nazi, foi grande resistente e uma grande lutadora contra os totalitarismos e grande defensora dos direitos da mulher. Foi para mim um privilégio, então com 31 anos, ser dirigido por uma pessoa de tal envergadura. Lembro-me que logo nas primeiras semanas fiz uma intervenção sobre questões de Defesa numa reunião do grupo liberal em Florença. Ouvi de Simone Veil palavras encorajadoras. Não vou dizer que hoje faltem dirigentes de envergadura, mas, naturalmente, para se fazer o que se fez na Europa naquelas décadas só cidadãos de grande dimensão como Simone Veil o poderiam ter feito.

 

Advogado

 

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