Uma cura para o clima pior do que a doença

Apesar da grande retórica de Paris, todas as boas intenções do mundo servirão de pouco se a nossa "solução" para o clima for apenas mais uma política que teve mais custos para o planeta do que benefícios.

Dois anos depois de o Acordo de Paris ter sido assinado, a capital francesa voltou a atrair a elite mundial, em Dezembro, para a cimeira One Planet do presidente Emmanuel Macron. Criticando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, por ter retirado o país do acordo e reafirmando os seus compromissos, os políticos formaram um grupo auto-congratulatório com activistas famosos e líderes empresariais.

 

Devemos tratar este tipo de bonomia com cautela. A boa vontade não é suficiente para travar as alterações climáticas, e a história está cheia de políticas bem-intencionadas que acabaram por ser inúteis ou até piores do que os problemas que deveriam resolver.

 

Um exemplo particularmente devastador foi a tentativa de Mao Zedong de melhorar os rendimentos das culturas e a saúde através da erradicação dos pardais. Como consequência, a população de gafanhotos cresceu, contribuindo para uma onda de fome que ceifou cerca de 30 milhões de vidas.

 

Mas nenhum governo está imune. O ex-presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, admite que a sua histórica lei criminal de 1994 foi contraproducente porque resultou na prisão de tantas pessoas que "não havia dinheiro suficiente para educá-las, formá-las para novos empregos e aumentar as suas hipóteses quando saíssem". Na década seguinte, pareceu prudente que os Estados Unidos mantivessem os seus piores prisioneiros iraquianos num campo – uma decisão que é agora apontada como responsável por ter ajudado os futuros líderes do Estado Islâmico a aprender a conspirar.

 

Muitas vezes, as falhas nas políticas só se tornam evidentes em retrospectiva. Para identificá-las em tempo real precisamos de ser capazes de realizar uma análise tranquila de custos e impactos. E nenhum tema exige mais essa análise do que as alterações climáticas. Consideremos a cimeira de Dezembro em Paris, onde a atenção esteve focada ora na ausência da administração Trump, era nos líderes mundiais que o desafiaram. Em momento algum ouvimos falar dos custos e efeitos reais do Acordo de Paris.

 

A ciência económica ajuda-nos a estabelecer a escala do problema. O Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC), o painel climático da ONU, estima que daqui a cerca de 60 anos, o aquecimento global custará ao planeta entre 0,2% e 2% do PIB. Isso é um problema, mas não é o fim do mundo.

 

Neste momento, o custo líquido do aquecimento global está próximo de zero. Isso parece falso, porque ouvimos uma torrente de notícias terríveis relacionadas com o clima. Mas não temos a imagem completa.

 

Compreensivelmente, uma seca na Síria chega às notícias. Mas o aquecimento global significa mais precipitação. Uma análise da revista Nature mostra que, globalmente, as secas diminuíram desde 1982. Assim, embora o aquecimento global tenha contribuído para algumas secas, em geral reduziu a seca; mas a ausência de secas dificilmente gera manchetes.

 

Da mesma forma, ouvimos preocupações relacionadas com o facto de as florestas tropicais estarem a ser dizimadas. Mas, ainda que isso mereça atenção, a verdade é que, pelo facto de o dióxido de carbono fertilizar a vegetação, as alterações climáticas aumentaram a matéria verde do mundo (plantas de todos os tipos) desde 1982 a uma escala equivalente a um continente inteiro.

 

As melhores estimativas mostram que o aquecimento global tem agora um custo líquido de zero. (O estudo mais pessimista aponta para um custo de 0,3% do PIB e o mais optimista para um benefício líquido de 2,3%). Isso aumentará para 2% em meio século, e para 3 a 4% no início do século XXII, se não agirmos.

 

Mas as políticas climáticas de Paris são essencialmente gestos de altos custos e poucos efeitos. A União Europeia dedicará este ano 20% do seu orçamento a acções relacionadas com o clima. Tendo em conta o custo total para a economia, a factura da UE será provavelmente de cerca de 209 mil milhões de euros.

 

Os benefícios serão extremamente pequenos. Atendendo aos compromissos assumidos pela UE para reduzir as emissões de CO2 no âmbito do Acordo de Paris até 2030, a minha análise mostra que, no cenário mais optimista, os objectivos em termos de emissões, totalmente alcançados e adoptados ao longo deste século, evitarão apenas 0,053°C do aquecimento global até 2100.

 

Esse pequeno impacto não é razão suficiente para abandonar a política de redução de emissões da UE. Mas isso deve obrigar-nos a considerar se a cura não é mais cara do que a doença - e questionar se haverá outras abordagens que possam ser melhores.

 

Outro estudo mostra que cada dólar gasto nas políticas climáticas da UE gerará um benefício climático a longo prazo de apenas três cêntimos. E, apesar do ânimo vindo de França, o Acordo de Paris é muito desequilibrado: com um custo anual de 1 a 2 biliões de dólares, as próprias Nações Unidas estimam que irá alcançar 1% do que seria necessário para manter o aumento da temperatura abaixo de 2°C.

 

Precisamos de opções mais inteligentes e mais baratas. O meu think tank, o Copenhagen Consensus, pediu a 27 dos principais economistas do clima, a nível mundial, que explorassem todas as respostas políticas viáveis e concluímos que o melhor investimento a longo prazo é em pesquisa e desenvolvimento de energia verde. Por cada dólar gasto, 11 dólares de danos climáticos serão evitados. Isso faz muito mais sentido do que gastar uma fortuna em cortes de CO2 que não fazem quase nada.

 

Os países devem reduzir as suas políticas climáticas actuais, que são ineficientes e, em vez disso, aumentar os gastos com pesquisa e desenvolvimento ao nível da energia verde. Só a inovação pode tornar o preço da futura energia verde inferior à dos combustíveis fósseis, levando todos a mudar. Também precisamos de uma adaptação barata e eficaz, para evitar os piores danos climáticos. E a principal fonte de vulnerabilidade para futuros danos climáticos é a pobreza: os pobres serão os mais atingidos, como o são por todos os outros desafios globais. Por isso, tirar as pessoas da pobreza ajudará mais do que qualquer outra coisa.

 

Apesar da grande retórica de Paris, todas as boas intenções do mundo servirão de pouco se a nossa "solução" para o clima for apenas mais uma política que teve mais custos para o planeta do que benefícios.

 

Bjørn Lomborg é director do Copenhagen Consensus Center e professor na Copenhagen Business School.

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

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