José M. Brandão de Brito
José M. Brandão de Brito 21 de junho de 2017 às 20:57

Uma estratégia transformadora para a Europa

Para a Europa, o sucesso depende da capacidade de se mobilizar em torno de um projeto, que não ferindo o seu âmago identitário, tire partido das novas oportunidades.

A FRASE...

 

"Merkel afirma estar aberta à ideia de dotar a área do euro de um ministro das Finanças e de um orçamento comum, concedendo apoio condicional a uma das políticas de assinatura do Presidente Macron."

 

Financial Times, 20 de junho de 2017

 

A ANÁLISE...

 

O resultado das eleições em França e no Reino Unido e a debilidade do Presidente americano podem fazer crer que o mundo, afinal, não mudou e que os temores populistas que despontaram com o Brexit e Trump desapareceram com a vitória de Macron e a incapacidade de Theresa May em renovar a maioria absoluta que as sondagens lhe outorgavam pouco antes das eleições. Neste quadro é compreensível a tentação de considerar que o "status quo" foi restabelecido. Na realidade, porém, isso não é possível devido à profunda alteração do equilíbrio de forças global das últimas décadas. A inexorável perda de importância relativa da Europa e dos EUA continuará a produzir ondas sísmicas nas sociedades ocidentais, nem que seja pela inevitável transformação do paradigma concorrencial que a nova ordem económica exige. Mas a mudança não tem de ser má.

 

Para a Europa, o sucesso depende da capacidade de se mobilizar em torno de um projeto, que não ferindo o seu âmago identitário, tire partido das novas oportunidades. Mas quais? A atual tendência isolacionista dos EUA na vertente comercial face aos países da orla do Pacífico e à UE oferece à Europa a possibilidade única de cavalgar a estratégia chinesa da Nova Rota da Seda, a qual incide na exploração do espaço económico da Eurásia, que vai dos extremos orientais da China e da Rússia até ao Cabo da Roca. Se juntarmos o magnífico potencial da Eurásia à posição de promontório da Europa sobre o Atlântico (África + América Latina) apercebemo-nos do manancial à disposição dos europeus. De igual modo, o reduzido entusiasmo de Trump com a NATO permite à Europa desprender-se dos desígnios geoestratégicos dos EUA e começar a planear um sistema de defesa próprio, que lhe confere outro tipo de autonomia para uma estratégia de maior envolvimento com a Rússia e a China. Mas para que isto aconteça é preciso que a Europa se una. A aparente aproximação de Merkel a Macron na vertente da arquitetura económica do euro é, a este propósito, um excelente augúrio.

 

Artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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comentários mais recentes
Silva Há 1 semana

Na Europa ( onde a CS debate o fundo dos problemas ) os movimentos que defendem uma Europa de nações ( como De Gaule ) e não o federalismo têm sempre mais adeptos. Em Franca foram quase metade dos eleitores ( macron teve 32% ) que votaram nesse sentido e que não se vão calar. Em Itália idem.