Francisco Mendes da Silva
Francisco Mendes da Silva 15 de Novembro de 2016 às 21:10

Uma lição de António Costa 

O maior talento de António Costa é a sua frieza simpática, aquele seu semblante imperturbável, de sorriso ligeiro e aparente indiferença às crises que o rodeiam.

Numa época politicamente tumultuosa, esta impavidez é uma arma poderosa, porque transmite a ideia de que somos governados por um par de mãos seguras, num clima de serena normalidade. Não sei é se o primeiro-ministro está consciente de que a eficácia dessa "coolness" também tem os seus limites. Em todas as crises há um momento em que se exige uma tomada de posição firme. Sem ela, sobram a apatia e o ridículo. É o momento em que Mr. Cool se transforma em Mr. Bean.

 

No tema da Caixa Geral de Depósitos, há muito que Costa ultrapassou os limites da sua própria fleuma. Já se percebeu que o Governo deu mesmo a António Domingues a garantia de que os administradores da Caixa não teriam de apresentar declarações de rendimentos e património no Tribunal Constitucional. Não é preciso recorrer à forma desbragada e pormenorizada com que a história corre em toda a imprensa. Vamos aos factos: o Governo fez aprovar uma lei para excluir os administradores da Caixa do regime dos gestores públicos; o responsável pelas negociações, o secretário de Estado Mourinho Félix, disse ao Diário de Notícias que a exclusão legal abrange intencionalmente a obrigação de apresentação das declarações; o ministro Mário Centeno confirmou-o publicamente, defendendo que o escrutínio da administração cabe apenas à própria Caixa e ao Governo. Estes são os factos indesmentíveis, que não se apagam com as respostas evasivas do primeiro-ministro nem com o esforço comunicacional - atipicamente temerário, atabalhoado e tardio - do secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, Pedro Nuno Santos.

 

Quando percebeu a polémica que se gerou, o primeiro-ministro, para salvaguardar o interesse da Caixa, só tinha duas hipóteses. A primeira alternativa seria dizer que o compromisso assumido era inadmissível e que, desse por onde desse, não poderia ser cumprido. Talvez isso implicasse o sacrifício de desejar a Centeno e Mourinho Félix uma boa viagem de regresso ao Banco de Portugal - um abalo no Governo que Costa não quis experimentar.

 

A segunda alternativa seria construir uma narrativa que justificasse o compromisso. Costa poderia dizer que o sucesso da recapitalização da Caixa só seria possível com os melhores da banca privada, e que garantir-lhes a equiparação ao regime privado era uma contrapartida que a República deveria estar disponível para aceitar. Poderia lembrar que, aliás, o regime de transparência português é de um rigor excepcional, dentro do quadro europeu. Poderia, até, dizer o que disse a propósito dos salários dos administradores: que a medida é "muito impopular", mas que só dando "as mesmas condições que têm os gestores dos outros bancos" é possível o banco público ter uma gestão "capaz, competente e profissional".

 

Como é óbvio, Costa não quis ser "muito impopular". Não há margem para isso num Governo ultraminoritário dependente de partidos que, em matéria de responsabilidade para com o sector financeiro, estão nos antípodas ideológicos do PS. Optou então por uma terceira via: fingir que também o Governo é uma vítima da audácia da administração da Caixa e deixá-la a naufragar, sozinha, no mar adverso da opinião pública.

 

Para salvar a solidez do seu poder e da sua própria imagem, o primeiro-ministro não hesitou em arriscar a solidez da Caixa. Que nos sirva, a todos, de lição.

 

Advogado

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comentários mais recentes
5640533 Há 3 semanas

Para salvar o poder este homem é capaz de TUDO.

surpreso Há 3 semanas

Um pantomineiro,ó Xico!