Fernando  Sobral
Fernando Sobral 19 de outubro de 2017 às 20:45

Uma nova cultura política

Da mesma forma que o polícia de "Casablanca" descobre, horrorizado, que se jogava no "Rick's Café", muita da classe política (nacional, distrital e local) ficou agora escandalizada pelo que tornou cinzento o Portugal ao norte do Tejo.

O problema é que os interesses instalados a todos os níveis (e não são apenas os "boys" que pululam, consoante o Governo, para o comando da Protecção Civil) não desejam que muita coisa mude. Por isso é patético ouvir Pedro Passos Coelho, saído do seu mutismo, vir agora falar da "culpa" de António Costa, depois de ter descoberto "suicídios" em Pedrógão, mostrando as linhas com que cose a política indígena. Tal como Assunção Cristas, depois da sua lei sobre os baldios, pode agora falar da "culpa" dos outros.

 

Depois desta tragédia, fruto de incompetência e desorganização total, seria tempo de criar uma nova era política. Porque é pela política que essa mudança cultural (porque o terreno fértil para incêndios faz-se com base no ADN dos portugueses, cada um preocupado com o seu quintal e não com o de todos) e pela acção dos poderes públicos. As estruturas empresariais falham sempre na acção política (excepto na forma de influenciar decisões) porque um partido político não é apenas uma organização. É um movimento, no topo do qual está um líder e uma corte. Se o olhar do líder alinhar com o teu, és poderoso. Se se focar noutro, o poder rola para as mãos de outro. E é neste jogo que se discute a política entre nós. Quando perguntaram a John F. Kennedy como pensava derrotar o comunismo, ele disse que isso requeria "mais do que poder aéreo, financeiro ou humano". Seria necessário mais "poder mental", para que as pessoas, a Leste, vissem "o esplendor dos nossos ideais".

 

Criar uma política de florestas, minimamente consensual, é a base de tudo. E, aliada a isso, é preciso poder estatal que não se vergue aos múltiplos interesses (uns querem mais dinheiro para aviões, inúteis como se viu quando há muito fumo, outros para carros de combate, etc.) que vão esgrimir a favor das suas quintas quando se tentar colocar em prática o relatório da Comissão Independente. O Estado, desta vez, precisa de impor regras e criar uma estrutura que impeça que novas desgraças destas aconteçam. Isto requer uma nova cultura política e cívica, mas é isso que se teme que possa não vir a acontecer. Os próximos tempos vão ser de chicana política, fomentada pela lógica de que é preciso "um culpado" para que todas as consciências possam dormir tranquilas. A moção de censura do PP vai clarificar algumas coisas. Isto enquanto o PSD se vai preparando para a sucessão de Passos Coelho e, por isso, está sem um rumo definido, excepto a lógica de derrubar o Governo.

 

Portugal precisa, neste momento, de repensar o seu modelo político, económico, social e ambiental. E trazer este último para o debate na sociedade, porque estes incêndios vêm-nos dizer que a desertificação anunciada começa a chegar. E que o tipo de árvores que plantarmos e a forma como tratarmos a floresta, a nível de prevenção, vai ser determinante para qualquer futuro neste país. O resto são guerras e guerrilhas de quem sempre manifestou um profundo desprezo pela criação e manutenção de uma floresta sólida e rica. 

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comentários mais recentes
Mr.Tuga Há 22 horas

CERTO!

Acima de tudo é preciso incutir no troglodita bronco iletrado tuga, CIVISMO ÉTICA e CIDADANIA !!!!!!!!!!!!!!!!
Até a coisa mais básica da condução "PISCA" o sebento tuga ignora em total desrespeito pelos outros e pelo fabricante de automóveis que gasta pipas de massa a lá colocar lâmpada!

Anónimo Há 1 dia

Lei?? Quem cumpre a lei em Portugal? Nas cidades ou arranjam subterfúgios ou entregam o assunto a justiça + advogados e tribunais -resoluções la para asa calendas. Na provincia a lei são os que la moram e nao querem saber de + nada. Quando ha mortes - aqui del'rei.