Fernando  Sobral
Fernando Sobral 23 de janeiro de 2017 às 00:01

Uma Nova Ordem

Xi Jinping foi a estrela de Davos. Donald Trump tomou posse. Nenhum deles, nem nós, tem uma bola de cristal para ver o futuro. Mas se alguém definiu melhor o presente nestes últimos dias, essa voz não veio de Davos ou de Washington. Pertenceu a uma estilista, Miuccia Prada.

Não é para admirar: a moda ou a música antecipam tendências, muitas vezes antes de os políticos as descobrirem. Miuccia Prada diz que estes tempos são de regresso à "simplicidade". Depois de em Londres os estilistas terem apostado em propostas que evocam o deprimente mundo de Dickens, é o pragmatismo e a segurança que nivelam as ideias. Não há certezas e isso foi visível em Davos, onde o herói foi Xi Jinping, que declarou: "Ninguém será vencedor de uma guerra comercial." O Presidente chinês é o megafone da globalização económica que Davos representou e onde, como disse Jamie Dimon, o líder do JP Morgan Chase, "os multimilionários informam os milionários sobre a situação da classe média". É esse mundo, onde os transnacionalistas que já têm pouca necessidade da lealdade nacional, que está a vacilar e tremer.

 

Os que não foram convidados para esta festa global estão a ripostar. Não é por acaso que Trump nunca foi convidado para ir a Davos. E é também por isso que ele é um fruto da essência da cultura popular americana, onde os heróis vêm de fora do sistema, sejam as personagens interpretadas por John Wayne ou os detectives privados inventados por Raymond Chandler ou Dashiell Hammett: todos eles actuam nas margens da lei e jogam sujo com os opositores, mas têm um código de honra inviolável. Não traem os amigos nem querem fazer parte da elite. Por isso, para a maioria dos americanos não interessa se Trump é um Batman ou um Dirty Harry. O que eles desejam é um herói que os redima e os salve, mesmo que seja através do pecado. Que os proteja da globalização capitalista, onde os papéis dos EUA e da China parecem agora estar estranhamente invertidos. A nova ordem está aí: onde o herói mitológico moldará a realidade virtual. Ou não.

 

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