Leonel Moura
Leonel Moura 10 de Novembro de 2016 às 19:10

Uma oportunidade

O mal está feito e tudo foi dito. A América está dividida entre uma população urbana, educada, dinâmica e civilizada e outra maioritariamente rural, ignorante, retrógrada e fundamentalista religiosa.

Num efeito de pêndulo, umas vezes vence a primeira, noutras, a segunda. Agora elegeram o pior.

 

A América, enquanto federação, também está dividida. Na Califórnia, Hillary obteve 61% dos votos e Trump, 33. Não admira. A Califórnia tem as melhores universidades do mundo, as mais importantes empresas de tecnologia e a indústria do cinema. Já se fala de reanimar o movimento pela independência.

 

Com o mal feito cabe pensar o que aí vem. Nada de bom sobretudo para os próprios. O país vai regredir em praticamente todos os índices de civilização, desde a educação aos direitos humanos, mas também como economia e como potência mundial. A eleição de Trump retira seriedade e importância global à América, pelo ridículo, mas igualmente pelo prometido isolacionismo e aleatório "bullying" militar.

 

Os brancos pobres, embrutecidos pela estupidez e pela religião, que garantiram a vitória de Trump serão os primeiros a serem prejudicados por uma política económica primitiva que favorece os ricos e retira ao Estado o papel de redistribuição. Merecem, mas essa política vai afetar milhões de outros americanos e desde logo os negros dos quais só 8% votaram em Trump. A violência racial vai aumentar num país que já é um dos mais violentos do planeta.

 

Do ponto de vista global o efeito Trump vai ser negativo, podendo conduzir a uma recessão, mas terá também efeitos positivos. O declínio da América vai acelerar o desenvolvimento de alguns países, penso, por exemplo, na Índia, e reforçar as características de liberdade, inovação e empreendedorismo de outros. Para a Europa, que Trump e a ala mais à direita do partido republicano que ocupará a Casa Branca detestam, abre-se uma janela de oportunidade. Excetuando França que poderá escolher o retrocesso civilizacional, a política europeia, mesmo a de direita, é bastante avançada e livre quando comparada com os fenómenos de populismo que assolam o mundo. A Europa, que já era o maior espaço de liberdade do planeta, reforçará a sua liderança. A deslocalização de empresas e de pessoas altamente qualificadas para vários países europeus é não só previsível como já começou. Tanto mais que o Brexit que levará o Reino Unido a afundar-se junto com a América dá um decisivo contributo.

 

A sorte, que nestas coisas conta, faz com que Portugal seja hoje um país dinâmico, aberto e apostado no futuro. Teremos mais investimento internacional, sobretudo dos negócios que contam, tecnológicos, assentes na inovação e na liberdade. É saber aproveitar. E o atual Governo tem demonstrado que sabe como fazer como se viu recentemente com o sucesso do Web Summit.

 

A eleição de Trump representa uma típica reação pouco informada do fim do domínio americano e consequente ascensão de outros países e economias. Trata-se de uma fuga para baixo que diminuirá ainda mais o papel dos Estados Unidos no planeta. Deixando assim espaço de crescimento para outros na linha dos ensinamentos de Darwin. Não se fará sem percalços e maus momentos. A tentação de recorrer à extrema agressividade vai estar presente e ameaçar o mundo nos próximos anos. Mas, sendo otimista, porque é a única coisa que se pode ser, acredito que nada de muito grave e irreversível vai acontecer. Os americanos vão aprender a lição. Da pior maneira, mas com a velocidade dos povos inteligentes.

 

Artista Plástico

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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mais votado Anónimo Há 3 semanas

Porque sera que os esquerdistas se acham donos da verdade, com complexos de superioridade, nem a chamada "esquerda" é dona do progresso, nem a chamada "direita" é dona do retrocesso. Poque sera que para eles o mundo se resume a preto e branco, não existem outras cores. Os principais culpados de aparecerem estes fenomenos são precisamente eles que com as suas utopias e irresponsabilidades.

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mario Há 3 semanas

oh Sr. Moura, o senhor é capaz de ser um grande artista plástico e, talvez por estar chocado pelo brilho da sua arte, está incapacitado de ver o mundo em que vive;
é que os chavões e as politiquices não interessam a ninguém, porque as pessoas precisam de comer todos os dias, morar e viver dignament

nin Há 3 semanas

E acrescento que foi e é a arrogância da sua classe que permitiu isto. A sua classe de gente letrada e impoluta deixou um rasto de miséria no mundo. Os Trumps são os vossos filhos intelectuais. E continuam a não perceber. É a democracia, estúpido!

nin Há 3 semanas

Mais um comunista que acha que a democracia é só para os inteligentes, e inteligente é ele. O mal, Sr. Moura, é que quem lhe dá de comer e lhe limpa o lixo e lhe lava o carro também vota, não é? O divisionismo parte da esquerda, que acha que é melhor que todos.

saamoura Há 3 semanas

ena! quanta bobagem junta! quanto desrespeito só porque algumas pessoas pensam diferente dele! dá-nos motivo para aplicar-lhe os mesmos qualificativos deletérios. e muita ignorância também, porque as melhores universidades do mundo não estão na California.

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