Paulo Carmona
Paulo Carmona 08 de janeiro de 2018 às 21:06

Uma questão de coerência

Devemos estar mais preocupados com a satisfação e prestação de serviços de excelência na saúde, a todos sem exceção, do que com quem os presta.

A FRASE...

 

"A despesa do SNS em 2016 correspondeu a apenas 4,8% do PIB, diz João Semedo que, em conjunto com o fundador do PS António Arnaut, propõe em livro uma nova lei de bases da saúde e o fim das PPP e das taxas moderadoras."

 

Público, 4 de novembro de 2017

 

A ANÁLISE...

 

Todas as questões sobre que políticas queremos, que prestações sociais merecemos ou a sociedade que devíamos ter esbarram em questões comezinhas de falta de fundos. Temos legítimas ambições de Estado Social do Norte da Europa, mas temos uma economia muito ao Sul do continente. Querer ou exigir é fácil e legítimo, mas como ter uma economia a crescer sustentadamente e a criar riqueza para o conseguirmos seria a discussão que gostava de ver.

 

A insistência ideológica arcaica de acabar com operadores privados complementares ou concorrentes das políticas públicas já deveria ter falecido com a célebre orientação do camarada Deng Xiaoping: "Não me interessa se o gato é branco ou preto, desde que cace ratos." Ou seja, devemos estar mais preocupados com a satisfação e prestação de serviços de excelência na saúde, a todos sem exceção, do que com quem os presta. Acabar com as PPP é coerente com essa ideologia. Como é que uma gestão privada de um hospital público pode utilizar menos recursos para os mesmos tratamentos, atingir maior grau de satisfação e ainda por cima ter resultados positivos. Não sei se acontece, mas é bom prevenir que tal aconteça, para evitar o embaraço de quem defende mais a prestação de serviços ser pública do que a sua qualidade e eficiência/eficácia.

 

Aliás, deveríamos acabar com as unidades de saúde privadas. Se forem piores do que as unidades do SNS, são uma má alocação redundante e ineficaz. Se forem melhores, não sendo gratuitas, só serão utilizadas por quem as pagar. Aí teríamos uma saúde para ricos e outra para pobres, que é o contrário do que pretendemos para uma sociedade mais solidária, justa e inclusiva.

 

Se não tiverem coragem ideológica para tanto, poder-se-ia pensar em vedar o acesso da ADSE a unidades fora do SNS. O Estado gere um sistema de seguro de saúde para os seus próprios funcionários e usa-o para financiar os sistemas privados? Se estamos muito preocupados com o financiamento do SNS poderíamos começar por aí. Não acredito que a cegueira ideológica de uns chegue para propor uma medida ideologicamente coerente como esta, mas que estará completamente contra os seus eleitorados naturais…

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

pub