Isabel Stilwell
Isabel Stilwell 19 de setembro de 2017 às 19:50

Uma senhora não fala de dinheiro

Há dias em que rogamos pragas à educação que recebemos, às ideias que nos meteram na cabeça e que, por muito que as sujeitemos ao crivo da lógica, permanecem tão irracionais como quando as absorvemos pela primeira vez. Para dizer a verdade, há muitos dias assim.
Como quando o assunto é falar de dinheiro. Ou melhor, não falar, porque aprendemos cedo que não é bonito falar de dinheiro. Não se exibe o dinheiro que se tem, não se lamenta o que não se tem, não se pergunta aos outros, nem aos que nos são mais próximos, quanto ganham, nem muito menos quanto lhes custou isto ou aquilo. Mais ainda, as meninas. Disseram-lhes que as senhoras, as que se prezam, não conversam sobre dinheiro, ou seja, que o conveniente é que aceitem o que lhes é oferecido e em circunstância nenhuma se "vendam".

E o resultado está à vista: continuamos a chegar a entrevistas de emprego ou a reuniões de trabalho cheias de medo de que nos imaginem gananciosas, confundido (e deixando confundir) simpatia e educação com uma louvável capacidade de defendermos os nossos próprios interesses. Aceitamos trabalho com um sorriso diligente, mas se o interlocutor não se chega à frente com as condições, gaguejamos qualquer coisa como "desculpe, se não for muito incómodo", em versão "é o que não lhe fizer falta". Isto quando não saímos de lá sem perguntar nada, justificando-nos perante nós mesmas com um "depois mando um mail a saber", mas, no fundo, sentindo-nos as pessoas mais estúpidas à face da Terra.

 

Confesso que julgava que o problema era só de algumas de nós, eventualmente só português, mas nada disso. Num artigo intitulado "Porque é que as mulheres não negoceiam ofertas de trabalho", publicado na Harvard Business Review, a investigadora Hannah Riley Bowles constata que apenas uma em cada oito mulheres se atreve a negociar o salário proposto numa entrevista de emprego, enquanto 50% dos homens o faz. Impunha-se a pergunta: será porque os rapazes são mais bem preparados para negociar ou porque elas são menos confiantes em si mesmas? Mas, diz Hannah Riley Bowles, a resposta aponta para que "esta situação resulte muito mais da forma como as mulheres são tratadas quando se atrevem a negociar do que com a sua autoestima ou capacidade negocial". Ou seja, concluiu a investigação, é mesmo verdade que, na maioria dos casos, os empregadores se sentem menos inclinados a empregar as candidatas que procuram negociar o salário proposto do que uma que não o faça. E este "custo social", nome dado a este ónus, não o pagam os candidatos masculinos.

 

Cale-se, portanto, o grilo que nos recrimina de não sermos capazes de negociar em causa própria, e silenciem-se aqueles que nos dão nas orelhas por sermos tão "verdes" nestas coisas que nem conseguimos um aumentozinho ao valor que nos ofereceram, porque o que aconteceu, diz a investigadora, é que nos limitámos a intuir com inteligência que não tínhamos nada a ganhar com isso. Antes pelo contrário.

 

Não nos resta mais nada senão cruzar os braços? Hannah Bowles assegura que está provado que as mulheres conseguem o que querem, e ainda causar boa impressão, quando estão dispostas a apostar numa comunicação mais relacional, aplacando com humor o preconceito, ao estilo "tenho a certeza de que, se quer que uma mulher lidere uma equipa comercial, achá-la-ia muito incompetente se não negociasse o seu próprio ordenado". Reconhece, no entanto, que o conselho provocará, certamente, pele de galinha a muita gente. E não se engana.

 

Nota: Leia mais sobre estes estudos em https://hbr.org/2014/06/why-women-dont-negotiate-their-job-offers

Jornalista

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

A sua opinião2
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar
comentários mais recentes
Livros azuis e cor de ros 20.09.2017

Mais uma a dizer mal da educação que recebeu (freiras) é bem o exemplo da geração rasca

Matos 20.09.2017

Nunca há artigos destes sobre os homens. Bom, mas se nem Freud sabia o que queriam as mulheres...

pub