Robert Skidelsky
Robert Skidelsky 04 de setembro de 2017 às 14:00

Uma viagem pelo país de Putin

Hoje, a terra da linha ferroviária russa Baikal-Amur Mainline é sobretudo a terra de Putin.

A linha ferroviária russa Baikal-Amur Mainline (BAM, na sigla em inglês) "dificilmente pode ser chamada de uma atracção popular para turistas", refere um site turístico sobre a ferrovia de 2.000 milhas, que atravessa a Sibéria Oriental e o Extremo Oriente da Rússia. "A maioria das pessoas nunca ouviu sequer falar dela".

 

A antiga rival da BAM, a Ferrovia Transiberiana, é certamente mais popular. Desde que começou a sua actividade, em 1916, atraiu grandes nomes, incluindo os escritores de viagens como Peter Fleming, Paul Theroux e Colin Thubron. Mas é a BAM – a ferrovia pouco amada iniciada por Estaline na década de 1930 e concluída em 1984 por Leonid Brezhnev – que oferece a visão mais útil do humor russo fora das cosmopolitas Moscovo e São Petersburgo. Hoje, a terra da BAM é sobretudo a terra de Putin.

 

Fui inspirado a apanhar o BAM e a viajar pela Sibéria pelo livro de Dervla Murphy, Through Siberia by Accident, embora Murphy, uma intrépida avó irlandesa, tenha partido uma perna quando escorregou na primitiva casa-de-banho do comboio. Fui motivado também pelo facto de o meu bisavô ter construído a secção dos caminhos-de-ferro do Extremo Oriente do Transiberiano na década de 1890, embora eu nunca tivesse estado na última estação dessa ferrovia, Vladivostok, onde nasceu o meu pai. Três amigos acompanharam-me numa aventura improvável de duas semanas de comboio pela Sibéria.

 

O BAM – como a estátua da Mãe Pátria em Volgogrado, as chamas eternas no Túmulo do Soldado Desconhecido e o Parque Vitória em Moscovo, e as centrais eléctricas gigantes que se encontram ao lado do caminho do comboio – é um símbolo da outrora União Soviética. Foi o último grande impulso do regime no Extremo Oriente.

 

Como referiu Brezhnev, o BAM foi "o projecto de construção do século", criando túneis ao longo de milhares de milhas de rios, florestas e montanhas cobertas permanentemente de gelo. Hoje, resiste na mitologia da União Soviética sobretudo como um monumento ao esforço colectivo.

 

Tynda é uma cidade BAM típica. Na estação está uma estátua de uma jovem heroína a mexer em maquinaria; no parque está um antigo motor; e depois disso há longas filas de blocos de apartamentos descaracterizados. Numa indicação do emprego que desempenhava, pode ler-se: "Boa rapariga, gentil, sem maus hábitos, vai vender cimento".

 

O museu BAM, em Severobaikalsk, está cheio de manequins e fotografias de funcionários do BAM, das suas medalhas e das máquinas que usavam, incluindo um samovar gigante de metal, no qual faziam chá. O local de honra vai para Fedor Fedorovich, um herói que não é celebrado, e cuja tarefa era evitar acidentes, sendo que, para isso, aplicava golpes nas linhas e nas ligações dos vagões com uma marreta para tentar encontrar falhas.

 

Para Tatiana Nicolaevna Vetrova, curadora do museu, o BAM foi um símbolo de unidade. As estações ao longo do seu caminho – algumas bastante marcantes – foram construídas no estilo arquitectónico das nações da União Soviética que se juntaram para completar este projecto.

 

Perguntei à Tatiana se o museu tinha uma brochura para turistas. "Há muitos tratados académicos sobre este assunto", respondeu. Insisti, pedindo um pequeno guia para turistas, mas ela também não alterou a sua posição, mantendo que há demasiados factos para poderem ser colocados num pequeno espaço.

 

Finalmente, Tatiana vendeu-me uma história do BAM, escrita em verso, por 350 rublos (seis dólares). Conta a história, que a ferrovia era "a convocatória da nossa juventude". Os BAMovstsy (como eram chamados os trabalhadores da construção) não ganhavam muito dinheiro, nem esperavam ganhar. Em vez disso – numa crítica óbvia ao capitalismo – trabalhavam para o seu país e uns para os outros. "Fazer amigos como fazíamos antigamente é o que ensinamos às nossas crianças".

 

O tom é muito triste: no passado, camaradas juntavam-se para construir um novo mundo. Nas palavras de Tatiana, o BAM era "um trabalho feito com amor e a sua construção foi um sacrifício heróico de trabalhadores dedicados, pelo bem dos nossos filhos e netos". Tal como na Grande Guerra Patriótica de 1941 a 1945, as atrocidades vão sendo atenuadas mas a chama nunca se extingue.

 

Ainda assim, os horrores foram abundantes. Tatiana insistiu que a construção do BAM começou em 1974, a data politicamente correcta e depois da qual se começou a usar o termo "mão-de-obra limpa". Mas a primeira sessão da ferrovia – iniciada por Estaline para criar uma rota oriental que se distanciasse da fronteira chinesa – foi construída por mão-de-obra forçada, incluindo presos russos e prisioneiros de guerra alemães e japoneses, que estavam juntos nos chamados BAMlags, agora cidades fantasma.

 

Mesmo quando eram usados voluntários, eles não eram tão entusiastas quanto os relatos oficiais dizem. Tendo falta de uma habitação adequada e de electricidade, poucos se alistavam e muitos desertavam antes de terminar o período que tinham de lá permanecer.

 

Ainda assim, na era Brezhnev, a construção do BAM mostrou do que era capaz de alcançar o sistema soviético moribundo. De facto, a conclusão da construção da ferrovia representa um asterisco na avaliação convencional do estado decrépito em que estava realmente a União Soviética.

 

A verdade é que a Rússia Siberiana – ainda casa de 20 a 30 milhões de russos – beneficiou significativamente mais do sistema soviético do que os centros populacionais europeus. O coração da Rússia, como nos foi dito frequentemente durante a nossa jornada no BAM, é rural, não urbano. De facto, o estado soviético apoiou a política czarista de subsidiar os russos para irem para o leste. Só agora estão a regressar à Europa, estando a ser substituídos por um fluxo de chineses e de uzbeques.


A nossa viagem no BAM é uma recordação comovente da anterior prosperidade da região. Uma dessas memórias era uma kolkhoz (quinta colectiva) deserta no Lago
Baikal, que outrora prosperou com a pesca. A aldeia, que continua a ser habitada e bem conservada, consiste em algumas pessoas a cultivarem vegetais, a criar algumas galinhas e vacas, e a vender bugigangas a visitantes como eu. Ao mesmo tempo, barcos de pesca ganham ferrugem na costa como se fossem baleias na praia.

 

Na aldeia, à medida que desfrutávamos de um almoço caseiro de sopa e panquecas, a nossa anfitriã elogiava Putin, que merece crédito pela saúde da Rússia depois da desintegração da União Soviética. "Porque é que o Ocidente está tão chateado com a Rússia?" questionou a um dos nossos companheiros de viagem. "Eles não entendem que uma Rússia caótica é uma ameaça maior para o mundo do que uma Rússia unida?". É difícil obter uma audiência de direito internacional em terras do BAM.

 

Robert Skidelsky, membro da Câmara dos Lordes britânica, é professor emérito de Economia Política na Universidade de Warwick.

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org

Tradução: Ana Laranjeiro

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