Hans-Werner Sinn
Uma crise em plena escalada
07 Maio 2012, 23:30 por Hans-Werner Sinn
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Durante algum tempo, pareceu que o programa de crédito do Banco Central Europeu, no valor de um bilião de euros, destinado a injectar liquidez no sistema bancário da Zona Euro, tinha acalmado os mercados financeiros mundiais. Mas agora os juros sobre as obrigações soberanas de Itália e de Espanha estão de novo a subir, rondando os 6%.
Durante algum tempo, pareceu que o programa de crédito do Banco Central Europeu, no valor de um bilião de euros, destinado a injectar liquidez no sistema bancário da Zona Euro, tinha acalmado os mercados financeiros mundiais. Mas agora os juros sobre as obrigações soberanas de Itália e de Espanha estão de novo a subir, rondando os 6%.

É evidente que este limiar não constitui necessariamente um ponto de não-retorno a partir do qual o encargo da dívida se torna insustentável. Afinal de contas, as taxas de juro no Sul da Europa estiveram bastante acima dos 10% na década anterior à introdução do euro. Mesmo a Alemanha, nessa altura, tinha de pagar mais de 6% aos detentores de dívida soberana. No entanto, os mercados estão a dar sinais inequívocos das suas crescentes dúvidas sobre se Espanha e Itália estarão dispostas a suportar os seus encargos da dívida.

O principal problema é Espanha, onde a dívida externa do sector privado e do sector público é mais elevada do que as da Grécia, Portugal, Irlanda e Itália juntas. E, tal como na Grécia, está perto dos 100% do PIB (93%, mais precisamente). Em Espanha, 25% da população activa e 50% dos jovens estão desempregados, reflectindo a perda de competitividade do país depois do estoiro da bolha imobiliária, que cresceu com o crédito barato em euros concedido no período que antecedeu a crise. O actual défice de conta corrente mantém-se nos 3,5% do PIB, apesar da diminuição das importações por via da recessão, ao passo que a contracção económica levará a que Espanha falhe uma vez mais a sua meta para o défice orçamental.

Além disso, a dívida de Espanha junto do sistema de liquidações TARGET [Trans-European Automated Real-time Gross Settlement Express Transfer System – Sistema de Transferências Automáticas Transeuropeias de Liquidações pelos Valores Brutos em Tempo Real] do BCE aumentou em 55 mil milhões de euros entre Fevereiro e Março, uma vez que foi preciso compensar as saídas de capital deste montante. Desde Julho de 2011, a dívida TARGET de Espanha cresceu em 199 mil milhões de euros. O capital está em plena fuga, mais do que ultrapassando as entradas de 2008 a 2010. O total acumulado desde o início da crise (2008) significa que Espanha tem financiado todo o seu défice de conta corrente através da máquina de emissão de moeda.

O cenário não é muito mais favorável em Itália, onde a balança de transacções correntes passou de um superavit de cerca de 2% do PIB para um défice de 3% do PIB nos últimos 10 anos. A dívida TARGET do país aumentou em 76 mil milhões de euros entre Fevereiro e Março, tendo o total, desde Julho de 2011, atingido 276 mil milhões. Itália confronta-se também com o problema da fuga de capitais; com efeito, a saída dos investidores acelerou depois da injecção de liquidez por parte do BCE.

Está agora claro que o próprio BCE provocou grande parte desta fuga de capitais de países como Espanha e Itália, pois o crédito barato que ofereceu afastou o capital privado. O objectivo das medidas do BCE consistia em restaurar a confiança e permitir que o mercado interbancário recuperasse. Mas também não foi muito bem sucedido neste propósito, apesar da elevada quantia de dinheiro que pôs sobre a mesa.

De facto, neste momento até os franceses revelam dificuldades. Com o capital que fugiu do país, entre Julho de 2011 e Janeiro de 2012, a dívida TARGET de França aumentou em 95 mil milhões de euros. França também deixou de ser competitiva, devido ao crédito barato trazido pelo euro nos primeiros anos da moeda única europeia. De acordo com um estudo recente do Goldman Sachs, o nível de preços em França terá de diminuir em 20% em relação à média do euro – ou seja, depreciar-se em termos reais – para que a economia recupere competitividade na Zona Euro.

Itália terá de depreciar-se entre 10% a 15% e Espanha em cerca de 20%. Enquanto a Grécia e Portugal se deparam com a necessidade de uma deflação de 30% e 35%, respectivamente, os números para Espanha e Itália são suficientemente elevados para justificarem o receio quanto à evolução futura da Zona Euro. Estes desequilíbrios só podem ser corrigidos com um grande esforço e na condição de se aceitarem 10 anos de estagnação. Para a Grécia e Portugal, permanecer na Zona Euro implicará sacrifícios enormes.

Muitos solucionariam o problema concedendo crédito cada vez mais barato, através de canais públicos – fundos de resgate, Eurobonds ou BCE – provenientes do núcleo estável da Zona Euro e direccionados para um Sul em dificuldades. Mas isso obrigaria, injustamente, os aforradores e os contribuintes dos países desse núcleo a fornecerem capital ao Sul sob condições que nunca aceitariam voluntariamente.

Até ao momento, as poupanças alemãs, holandesas e finlandesas, que ascendem a 15 000, 17 000 e 21 000 euros por trabalhador, respectivamente, foram convertidas de investimentos competitivos em simples créditos de compensação para o BCE. Ninguém sabe quanto valerão estes instrumentos se houver ruptura da Zona Euro.

No entanto, acima de tudo, a provisão pública e permanente de crédito barato levaria, em última instância, a uma enfermidade persistente, se não mesmo ao colapso económico da Europa, porque a Zona Euro tornar-se-ia um sistema de gestão centralizada com controlo estatal sobre o investimento. Estes sistemas não funcionam, já que eliminam o mercado de capitais como principal mecanismo motriz do sistema económico. Não podemos deixar de nos admirar perante a ligeireza com que os políticos europeus empreenderam esta via tão perigosa.



Project Syndicate, 2012.
www.project-syndicate.org
Tradução: Carla Pedro

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