Leonel Moura
Leonel Moura 06 de Outubro de 2016 às 20:35

Uma oportunidade e um problema

A escolha de António Guterres para secretário-geral da ONU é um feito extraordinário do próprio, mas é também uma excelente oportunidade para Portugal.

Em número e espaço temos uma dimensão pequena. A população portuguesa caberia por inteiro numa das 34 cidades do planeta com mais de 10 milhões de habitantes. Em Tóquio, a maior, caberiam mesmo quatro "portugais". Infelizmente, temos também uma economia pequena, desequilibrada, pouco expressiva. Por isso a nossa presença no mundo assenta nos feitos individuais, como é o caso de Ronaldo, algumas marcas de referência, como o vinho do Porto e a História, sobretudo com os Descobrimentos.

 

Portugal nunca teve e não tem uma estratégia concertada e esclarecida de promoção global. Lugar pequeno também nas mentalidades, onde proliferam os invejosos e os incompetentes, promove-se por compadrio e só muito raramente por mérito. Escapar a esta mecânica é ficar isolado, na cultura ou nas empresas.

 

É certo que hoje a dinâmica da inovação tecnológica tem permitido que algumas empresas se destaquem na cena internacional. A moda das start-ups pegou e algo vai emergindo desse movimento. Refira-se ainda a qualidade da nossa arquitetura, com Siza Vieira e Souto Moura, entre outros, da nossa literatura, sobretudo com Saramago, e o facto de Portugal estar conjunturalmente na moda do ponto de vista turístico beneficiando da desgraça alheia. Mas, trata-se de casos particulares e acidentais.

 

Temos finalmente um Governo positivo e mobilizador após um ciclo depressivo que quis empobrecer o país económica e mentalmente.

 

Tudo considerado, estamos num tempo de crescimento da autoestima coletiva que abre muitas oportunidades e novos desafios.

 

A escolha de Guterres vem dar mais um poderoso e altamente significativo contributo a esse momento.

 

O Governo de António Costa cumpriu o primeiro ano repondo salários, melhorando ainda que ligeiramente a situação económica dos portugueses. Foi essa a promessa, foi essa a base do acordo à esquerda. Mas agora é necessário fazer um "upgrade". No segundo e restantes anos do mandato, é preciso ir mais longe e apostar em força na inovação tecnológica pois só ela pode superar os atavismos da nossa economia.

 

Nesse processo o papel da cultura é fundamental. É hoje evidente a importância decisiva que a criação artística tem na inovação tecnológica, não só porque a tecnologia atual é altamente criativa em si mesmo, mas porque assenta em ideias inovadoras, matéria de que se faz a arte.

 

Infelizmente, Portugal tem uma cultura genericamente atrasada, assente em cumplicidades, muita ignorância e, frequentemente, reativa à tecnologia do nosso tempo. Continua a pensar-se segundo modelos antigos, disciplinas e genialidades individuais. Quando a cultura de hoje é interdisciplinar e assenta no trabalho de equipas onde se combina arte e ciência.

 

Sempre afirmei que a cultura era o maior problema dos nossos governos, de esquerda ou direita. O atual não é exceção. Porque nunca se entendeu que mais do que exposições, peças de teatro ou filmes, cultura hoje é contribuir decididamente para a construção do futuro. A visibilidade que Guterres dá ao país poderia ser importante para uma alteração profunda do modo como entendemos a cultura em tempo de globalização tecno-criativa. Mas para isso era preciso renovar radicalmente o próprio entendimento do que é cultura hoje e a natureza das suas práticas. Precisamos de uma revolução cultural. Mas não vejo que ela esteja a acontecer.

 

Artista Plástico

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

A sua opinião1
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar
comentários mais recentes
5640533 Há 3 semanas

Vá sonhando...