Celso Filipe
Valores com super-desconto
06 Maio 2012, 23:30 por Celso Filipe | cfilipe@negocios.pt
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O caso Pingo Doce confirma que vivemos na "era do vazio" diagnosticada por Gilles Lipovetsky, e cujos os sintomas são a perda de valores morais, políticos e sociais. Uma era repleta de antagonismos sendo um deles, como o próprio Lipovetsky assinalou, o binómio ambientalismo-consumismo desbragado.
1. O caso Pingo Doce confirma que vivemos na "era do vazio" diagnosticada por Gilles Lipovetsky, e cujos os sintomas são a perda de valores morais, políticos e sociais. Uma era repleta de antagonismos sendo um deles, como o próprio Lipovetsky assinalou, o binómio ambientalismo-consumismo desbragado.

Este consumismo é um hino ao efémero, num mundo onde cada um avalia o outro, não por aquilo que é, mas em função dos sinais. Aliás, ficou tudo dito numa entrevista que o filósofo concedeu ao "Público", em 2007, recolhida no blog "ohomemquesabiademasiado": "O drama é que até os pobres são hiper-consumidores, não lhes basta comer, também aspiram à existência que vêem na publicidade e na televisão. O consumo tem uma função terapêutica, funciona como forma de esquecer os males da individualização: quando as mulheres estão deprimidas vão às compras, é um lugar-comum. É uma pequena droga, equivalente à missa de antigamente. Existe hoje um consumo-mundo, justamente porque já não existe Deus. Hoje a própria religião entrou numa lógica de consumo. A sociedade democratizou o conforto e a qualidade de vida, mas o indivíduo, divorciado da política e do interesse colectivo, centra-se num total individualismo e na busca pelo prazer através do consumo."

O super-desconto do Pingo Doce serviu para materializar esta percepção. E é esta visibilidade que a torna chocante, porque se sobrepôs ao teatro da representação social que cada cidadão pratica no quotidiano.

2. É um passo de gigante, mas o facto é que o caso Pingo Doce pode ser usado como uma hipérbole da União Europeia (UE), em particular da Zona Euro. Olha-se para a UE e constata-se que os Estados e os agentes económicos adoptaram a prática do "consumo-mundo", movimentando-se numa lógica de sinais e agindo em função deles.

Os mercados, por exemplo, avaliam os países em função de percepções e não de convicções. Os políticos mercantilizam esperança nos seus discursos e chegados ao poder deixam-na cair por terem concluído, dizem, que a herança que receberam era pior do que julgavam As certezas são trocadas pelos riscos e a volatilidade que se invoca amiúde, para justificar argumentos, encarrega-se de confirmar a predominância do efémero.

A UE apregoou uma sociedade do bem-estar, assente precisamente no postulado do "consumo-mundo" e com uma arma aparentemente igual para todos, o euro. E a única coisa que separa este modelo da sua falência completa é precisar a moeda única. Porque, quanto aos valores que caracterizavam a Europa, há muito que caíram na rede dos super-descontos.

*Editor executivo
Visto por dentro é um espaço de opinião de jornalistas do Negócios
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