Rui Namorado
Rui Namorado 24 de janeiro de 2018 às 19:50

Valorizar a economia social

Tem vindo a tornar-se mais evidente a indispensabilidade da economia social como fator de equilíbrio e dinamização da sociedade, na medida em que esta queira materializar mais liberdade, igualdade, justiça e democracia.

É por isso natural que a economia social atraia novos protagonistas, novas cumplicidades e novos apoios. Mas numa sociedade como a nossa, ainda sulcada por tantas desigualdades e injustiças, é também de esperar que ela suscita a hostilidade de muitos. Principalmente de quem é beneficiado por essas desigualdades e as quer, por isso, perpetuar e agravar.

 

Os comportamentos e as campanhas que a hostilizam são, por isso, quase sempre, mais uma consequência dos seus êxitos do que dos seus defeitos e incompletudes. Mas procurar mitigar os erros e preencher as incompletudes da economia social retira força aos seus inimigos.

 

Nessa medida, os protagonistas da economia social estão obrigados a aperfeiçoar-se cada vez mais na prossecução dos seus objetivos, corrigindo erros e potenciando virtudes, no respeito sem mácula pela sua identidade histórica e pela fidelidade persistente à sua ambição humanista e emancipatória quanto ao futuro.

 

Para isso, é indispensável robustecer um pensamento crítico da economia social sobre si própria, radicado numa informação ampla e rigorosa, num conhecimento refletido e numa ousada imaginação utópica.

 

Sejamos exigentes para nós próprios, no cuidado em nos conhecermos cada vez melhor. Aprendamos a olhar a economia social e a sociedade no seu todo, com os nossos próprios olhos, bem longe das distorções induzidas por interesses alheios e por preconceitos arcaicos.

 

Mas sejamos impiedosamente claros e diretos no combate à ignorância, à superficialidade, ao simplismo irresponsável, quando incidam na economia social. Quer provenham de esfinges ocas, quer de numerólogos sem bússola, quer de tecnocratas unidimensionais.

 

Façamos com que quem se arvore publicamente em especialista em economia social passe a envergonhar-se de não ter ao menos uma pálida ideia daquilo sobre que está a falar. Façamos com que a comunicação social passe a dar voz aos protagonistas da economia social e menos acolhimento aos dislates que a estropiem, mesmo que tenham a assinatura de nomes sonantes.

 

Desmascaremos as campanhas de raízes dissimuladas que combatem a economia social, esquecendo a sua contribuição para o bem-estar dos portugueses, ignorando o interesse nacional e desprezando a herança de abril. Campanhas quase sempre baseadas na deturpação do que é a economia social e no desconhecimento quanto ao trabalho que desenvolvem, dia após dia, as dezenas de milhares de entidades e os milhões de cidadãos que dão vida à economia social.

 

Quando os automatismos económico-sociais dominantes, movidos por uma lógica anti-humanista oposta à economia social, tingem de negro os horizontes futuros, cabe aos protagonistas desta última, assumindo uma autenticidade plena, aprofundar as lógicas cooperativas, reciprocitárias e solidárias que os movem.

 

Tendo como horizonte uma sociedade de liberdade e justiça, radicada na fruição coletiva e igualitária dos bens comuns e na sobrevivência digna de todos, cabe aos protagonistas da economia social assumirem uma sinergia plena com o Estado social, que a nossa Constituição garante juridicamente, envolvendo-se com ele numa mesma dinâmica esperançosa e transformadora. 

 

Conselho andaluz de entidades de economia social

 

O governo autónomo de Andaluzia (Espanha) aprovou a criação do Conselho Andaluz de Entidades de Economia Social, órgão consultivo de participação, coordenação e assessoria que contará com uma ampla representação do setor. Este órgão terá como atribuições a apresentação de propostas, estudos e pareceres sobre as políticas de desenvolvimento da economia social, bem como o fomento da colaboração e da partilha de conhecimentos e práticas entre as diversas entidades participantes. Para quando a criação, em Portugal, de conselhos regionais ou municipais de economia social?

 

A economia social e a integração dos migrantes

 

O Comité Económico e Social Europeu vai realizar no dia 2 de fevereiro, nas suas instalações em Bruxelas, uma audição pública sobre o tema "Como a economia social contribui para a integração dos migrantes?". O objetivo da iniciativa será debater o papel que as entidades de economia social podem ter no processo de integração de imigrantes, pelo acesso ao emprego e à formação, através da mobilização das comunidades, redes e parcerias com os poderes públicos, nacional e local. Do programa consta a audição, entre outros, de representantes da OIT e da Comissão Europeia.

 

Professor Jubilado da Universidade de Coimbra e membro do Conselho Nacional para a Economia Social

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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