Edson Athayde
Edson Athayde 14 de novembro de 2017 às 19:40

Vamos falar sobre a tolerância?

Há muito, o ruído ganhou da retórica. Das redes sociais ninguém está à espera de indulgência, contemporização, paciência, compreensão, calma e perdão.

"Deus como misericórdia infinita, mas também como justiça perfeita."

Misericórdia e justiça. Duas palavras que juntas ou separadas dizem coisas diferentes (até mesmo contraditórias) de época a época, de pessoa a pessoa.

 

"Misericórdia e justiça" era o lema da inquisição. Se a atuação histórica da Igreja Católica sob a bandeira do santo ofício foi deplorável, não foi por falta de belos vocábulos e ideais.

 

De boas intenções o inferno está cheio, como cheia está a internet também.

 

Os debates sobre o que pode e o que não pode está sempre inquinado por isto. Os vários lados das questões têm defensores raivosos, crédulos que estão a evitar erros, a promover valores bons, a corrigir distorções.

 

O problema são os outros. Sempre os outros. Os imperfeitos. Os tortos. Os esquerdos. Os impuros. Os que não pensam como nós.

 

Leio a notícia sobre uma instalação do Museu da Empatia. Museu do quê? Pois, a empatia já merece ser estocada num canto, sob pena de tão rara se extinguir.

 

O Museu da Empatia (www.empathymuseum.com) é um projeto internacional com sede em Londres. Tem ações itinerantes, que vão a outras cidades e países pregar a necessidade de olharmos o mundo com os olhos das outras pessoas.

 

Leio no artigo: "Por meio de experiências sensoriais e situações de diálogo e conexão entre os indivíduos, busca explorar como a empatia pode transformar as relações interpessoais, inspirar mudanças de atitude e até contribuir para enfrentar desafios globais como preconceitos, conflitos e desigualdade."

 

Antigamente o Museu da Empatia tinha sede na nossa simples convivência familiar, escolar, no bairro, na vila. Hoje é preciso transformar isso numa degustação de estímulos. É a "gourmetização" das emoções. Para atrair as pessoas para os bons sentimentos é preciso abrir um parque temático.

 

Nada contra a iniciativa, o meu problema não é com o Museu da Empatia (perdoem-me a redundância, mas sou empático com a ideia). O busílis é o ponto a que chegámos: tudo o que não for de plástico se dissolve no ar.

 

Desconfio, acredito, temo que debater a "tolerância" será o grande tema da agenda social neste e nos próximos anos.

 

Até que ponto aceitaremos os nossos próprios telhados de vidro como os limites do outro? O que caberá na larga gaveta da hipocrisia? Os julgamentos sumários bastarão para aliviar a má consciência geral ou partiremos para confrontos físicos?

 

Há muito, o ruído ganhou da retórica. Das redes sociais ninguém está à espera de indulgência, contemporização, paciência, compreensão, calma e perdão.

 

Talvez de misericórdia e justiça. Mas só como já foram compreendidas no passado.

 

Ou como diria o meu Tio Olavo: "Tolerância é toda a humanidade do mundo concentrada num átomo."

 

Publicitário e Storyteller

 

Artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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Anónimo Há 6 dias

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