António Gomes Mota
António Gomes Mota 19 de abril de 2017 às 19:22

Velhos e decrépitos, mas confiáveis 

É também interessante verificar que a Suíça mantém intocável o seu estatuto de país com risco mínimo, apesar de nestes últimos três anos se ter registado um acelerado desmantelamento da sua condição de cofre-forte anónimo e inviolável.

Há cerca de três anos escrevi um artigo que intitulei 11/8/3, algarismos que então representavam, sucessivamente, o número de países com "rating" máximo nas três principais agências - Fitch, Moody's e S&P - (11), o número de países europeus nessa condição (8) e, dentro destes, o número de países cuja moeda era o euro (3).

 

Fazendo a atualização para os dias de hoje, teríamos, respetivamente 10 (11 se incluíssemos os EUA que apenas não têm o "rating" máximo na S&P), 7 e 3. Concretizando, e fora da Europa temos apenas a Austrália, o Canadá e Singapura a merecer a unanimidade das três agências, na Europa três países integram o euro - Alemanha, Holanda e Luxemburgo - e quatro mantêm a sua moeda, a Noruega e a Suíça fora da UE e, dentro, a Dinamarca e a Suécia. Nestes três anos apenas se registou uma entrada neste clube restrito, a Holanda e duas saídas, a Finlândia e o Reino Unido. Ou seja, no essencial, a situação não mudou de forma muito significativa.

 

Apesar de nestes três anos muita coisa se ter passado, de a Europa, sobretudo a do Ocidente, estar ainda mais envelhecida, com um crescimento pouco mais do que anémico e sendo a única verdadeira novidade a presença massiva do BCE no estímulo monetário à Zona Euro, continua, apesar de tudo como o maior porto de abrigo mundial quando se fala de risco soberano. Mesmo quando se toma a União Europeia como entidade supranacional, exibe o "rating" máximo na Moody's e na Fitch e a terceira nota mais elevada na S&P, apesar de todas as vicissitudes conhecidas. Diz-nos esta realidade que o conceito Europa tem um valor indesmentível para todo o mundo, de confiança, previsibilidade e reputação que provavelmente nunca foi devidamente capitalizado e explorado, sempre afetado pelas nuances políticas internas e pelas dificuldades que vão surgindo, da crise das dívidas soberanas à crise dos refugiados.

 

Se esta perceção do baixo risco da Europa aos olhos do mundo e dos investidores globais é bem traduzida nos "ratings", o entusiasmo já não se propaga automaticamente ao euro enquanto instrumento, de "per si", potenciador dessa mesma visão de risco. Temos que dos quatro países que, desde o momento zero, se autoexcluíram, por opção e não por uma qualquer debilidade, da União Europeia ou do euro, três deles, a Dinamarca, a Noruega e a Suécia, continuam a exibir o "rating" máximo e assim apresentar uma enorme robustez nas suas moedas próprias, o que naturalmente não incentiva, nesta perspetiva, qualquer reconsideração da decisão inicial e será também uma janela de atratividade para um ou outro país do euro lhes seguir os passos.

 

Por outro lado, é também interessante verificar que a Suíça mantém intocável o seu estatuto de país com risco mínimo, apesar de nestes últimos três anos se ter registado um acelerado desmantelamento da sua condição de cofre-forte anónimo e inviolável, o que nos deve fazer, aliás, refletir sobre como se pode e se deve avançar mais e com maior amplitude no processo de controlo e transparência nos movimentos de capitais.

 

Professor na ISCTE Business School

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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