Ricardo Ferreira Reis
Ricardo Ferreira Reis 21 de janeiro de 2018 às 16:46

Vencer desafios de forma sólida e discreta 

A sociedade portuguesa tem sido sujeita nos últimos anos a desafios fortíssimos. É crucial entender que quase todos estes desafios são de âmbito global ou civilizacional e não são específicos a Portugal.

As alterações climáticas, o choque de culturas, evoluções demográficas, revoluções tecnológicas, igualdade de género, enfim todo um sem-número de desafios que são comuns a todo o planeta. O que é específico a Portugal nestes desafios é a forma como o país, a sociedade, a economia, as empresas e as pessoas estão preparadas para enfrentá-los. Depois, há desafios que são específicos à situação nacional: a qualidade da justiça, a organização e o papel do Estado ou a situação política. Mas também nestes, o crítico é entendermos a forma como a sociedade portuguesa está preparada para responder e vencer esses desafios.

 

Para o sucesso do país é então crítico estarmos preparados para (1) enfrentar, para (2) resistir e para (3) ultrapassar esses desafios. Seguramente, se alguma coisa aprendemos nestes últimos anos, é que não estávamos preparados para tão fortes desafios, como os que levaram à crise internacional. Por isso, termos sofrido tanto no ponto (1) e termos sido dos países mais afetados. Muita da ajuda europeia que recebemos veio precisamente para compensar esta impreparação.

 

Mas também ficou claro nos últimos anos que a sociedade portuguesa tem mecanismos para os pontos (2) e (3): os pontos de resistência aos desafios e de ultrapassagem dos mesmos. Isso ficou bem patente na extraordinária expansão das exportações nacionais e no surpreendente reequilíbrio das contas externas.

 

Vou dar-vos dois exemplos fantásticos de resiliência, de inovação, de visão estratégica e de autêntica revolução que vem de um setor extremamente discreto, mas que respondeu de forma exímia aos desafios recentes e que está pronto para os novos desafios: a agricultura, em particular o setor vinícola e frutícola.

 

Começo pelo vinho: a indústria vinícola portuguesa tinha tudo para ser arrasada por colossais desafios nas últimas décadas. Desafios a nível nacional: abandono e envelhecimento da população rural, imagem do setor, ausência de políticas de apoio nacional e comunitário a este setor; desafios a nível internacional: concorrência dos produtores tradicionais, concorrência dos produtores do Novo Mundo, modernização tecnológica, adaptação a uma nova cultura do vinho, o desafio da sustentabilidade. Chamada a reagir e a resistir, a resposta do setor foi admirável. Aproveitando todos os recursos disponíveis, explorou bem os apoios nacionais (que afinal existiam) e comunitários, apostou numa revolução tecnológica, numa renovação de imagem, numa reconfiguração de negócio e assentou num pilar basilar e exemplar: a sustentabilidade. A indústria vinícola nacional tem hoje padrões de sustentabilidade ambiental, sustentabilidade social e sustentabilidade financeira que se tornaram o sustento da nossa competitividade no setor. A sustentabilidade ambiental vem de um desenvolvimento tecnológico que torna as nossas principais explorações em exemplos de vitivinicultura a nível global, com as maiores empresas a começarem processos de internacionalização com investimentos no exterior. A sustentabilidade social vem de uma renovação da imagem das marcas e a sua associação a um desenvolvimento que começa lentamente a inverter o êxodo rural. A sustentabilidade financeira é o resultado do crescimento de exportações e, ainda que também lentamente, começa já a aumentar o leque das empresas que procedem a reinvestimentos. Tudo isto é discreto, mas bastante seguro nos resultados.

 

O outro exemplo vem da fruticultura, em particular dos pequenos frutos. A framboesa é hoje o fruto mais exportado, tendo já ultrapassado a pera. Para cultivar framboesas de forma tão intensiva foi necessária uma conjugação de desafios que soubemos transformar em oportunidades. Desde logo o clima ameno em Portugal, mas em transformação no resto do globo; depois a proximidade dos grandes mercados europeus; seguidamente o influxo de mão de obra de outras geografias (Leste Europeu ou Ásia); por último a existência de boas infraestruturas de rega, sobretudo na região do Sudoeste Alentejano. O maior investimento norte-americano em Portugal neste momento é neste setor e é-o, porque os americanos encontraram aqui a tal conjugação de condições naturais e sociais que permitem o vencer de desafios.

 

É tudo um mar de rosas? Não! Longe disso. Mesmo estes exemplos trazem com o seu sucesso novos desafios de integração e de articulação com o resto da sociedade. Mas estes exemplos trazem também a certeza de que, por mais duros que sejam os desafios, há neste país forma e força e engenho para os enfrentar e vencer. 

 

Venham por isso mais, maiores e melhores desafios!

 

Professor da Católica Lisbon School of Business & Economics e Director do Centro de Estudos Aplicados

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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