Pedro Santana Lopes
Pedro Santana Lopes 13 de setembro de 2017 às 22:26

Ventos a favor

Jean-Claude Juncker fez um discurso muito importante para a União Europeia (UE). Fez mesmo questão de frisar que os ventos voltaram a soprar a favor da Europa e essa frase simboliza bem o otimismo que procurou transmitir.

Foi um discurso de estadista também porque equilibrou, na devida proporção, esse otimismo ou esse espírito positivo com a prudência e sentido de responsabilidade. Por exemplo, praticamente fechou a porta a novos alargamentos até ao final dos atuais mandatos das instituições europeias. Recorde-se que teremos eleições para o Parlamento Europeu em maio/junho de 2019 e, no caso da Comissão Europeia, o mandato termina em outubro desse mesmo ano. Relembre-se ainda que o processo do Brexit terminará em março de 2019.

 

O presidente da Comissão mostrou, assim, que prefere consolidar os processos de integração dos países com mais dificuldades ou que mais recentemente aderiram à União. Juncker mencionou expressamente a Roménia e a Bulgária como exemplos de países que pretende que venham a integrar o Espaço Schengen. Juncker quis marcar bem a diferença em relação aos EUA e a esse propósito enfatizou a importância dos acordos comerciais que a UE vem celebrando, nomeadamente, com o Canadá e o Japão, declarando que quer fazer o mesmo com a Austrália e a Nova Zelândia e também, num outro plano, com a China. Essa vontade firme na área comercial contrasta, como é sabido, de modo vincado, com a vontade de protecionismo proclamada por Donald Trump. Juncker quis marcar essas diferenças em relação a Washington, mas também não quis deixar espaço livre para as pretensões de Emmanuel Macron nesse campo, o qual nestes primeiros meses deste seu mandato quis estar na vanguarda dessa marcação de diferenças, como em relação ao Acordo de Paris, embora não tenha deixado de receber como amigo o Presidente americano, quando do 14 de julho.

 

A verdade é que a Europa está a crescer mais do que os EUA há dois anos e a verdade também é que, há dois anos, a União Europeia, por força de processos eleitorais vários e de convulsões políticas, mas também por causa da quase estagnação da economia, encontrava-se com um "mood", com um astral, completamente diferente. Foi a altura da eclosão mais violenta da crise dos refugiados, o que conjugado com os fatores atrás referidos tinha criado uma onda de pessimismo quase generalizado. Agora é diferente, com a economia a crescer, com o investimento a subir, com o desemprego a baixar, e também no plano político com derrotas dos extremistas, nomeadamente em França, na Holanda e, pelo que se adivinha também em breve, na Alemanha. Mal seria, pois, que Jean-Claude Juncker e a sua equipa não aproveitassem essas circunstâncias favoráveis para ganhar fôlego político. Tenho escrito repetidas vezes que a UE carecia de líder e de liderança para o seu projeto comum. Há muito a fazer na União Monetária, na defesa da paz e da segurança, na Zona Euro, na reforma institucional. Mas Juncker, em final de mandato, com Macron e Merkel em legitimidade fresca, poderá ter margem de manobra para tirar vantagem da sua enorme experiência política de décadas de poder, no Luxemburgo, no Conselho Europeu e agora na Comissão Europeia. Só mais uma nota: se houver coligação de Merkel com Schulz, na Alemanha, pode ser também um elemento adicional de energia para este novo ciclo. Esperemos que os estadistas levem a melhor sobre os loucos.

 

Advogado

 

Este artigo está em conformidade com o novo acordo ortográfico

A sua opinião4
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar
comentários mais recentes
5640533 14.09.2017

"Europa de Espanha a Bulgaria". No Luxemburgo nao ensinam Geografia?

Anónimo 14.09.2017

Junker não tem qualquer credibilidade, falso, negociou nas costas da europa benesses para grandes empresas.
Fez um discurso para palermoids que gostam ser comidos , tachos !

Oposição 14.09.2017

O vigarista que quando era Ministro do Governo Luxemburgûes andou a negociar com as Multinacionais estabelecidas no seu país, à porta fechada e caso a caso quanto deviam pagar de impostos.

Ricardo 14.09.2017

Prezado Dr Santana Lopes, pelo respeito que lhe tenho e por considerá-lo o PM mais injustiçado de sempre, é que me permito chamar a atenção para isto: Não lhe parece que, na semana do furacão que devastou as caraíbas, falar de ventos que sopram a favor da Europa não é a melhor ideia? Seu admirador

pub