Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 21 de Novembro de 2016 às 19:55

Vontade e possibilidade

Só Trump poderá mostrar aos seus eleitores que a vontade política não é o mesmo que possibilidade política e que a vitória (eleitoral) pode ser o vestíbulo para a derrota (estratégica).

A FRASE...

 

"O melhor é levar Trump a sério e deixar de tratar as suas peripécias como anedotas."

 

Francisco Louçã, Público, 19 de Novembro de 2016

 

A ANÁLISE...

 

O eleitorado tem sempre razão. Mas não é porque saiba o que quer ou como se poderá concretizar o que deseja. O eleitorado pouco sabe de política ou de economia e desconhece como aplicar recursos escassos quando tem de se responder a necessidades que são ilimitadas. O eleitorado tem sempre razão porque revela aos responsáveis políticos o que é o campo de possibilidades real em que as estratégias, os projectos e as decisões se inscrevem, se testam, se realizam ou fracassam. O eleitorado tem sempre razão porque tem o poder de produzir uma descontinuidade, uma irreversibilidade, transformando o padrão de normalidade. O eleitorado tem sempre razão mesmo quando não sabe a razão que tem.

 

Os mais surpreendidos com a vitória de Trump terão sido os vencedores, que perderam na votação nacional, mas ganharam nos Grandes Eleitores do Colégio Eleitoral que elege o Presidente americano. Surpreendidos também terão ficado todos os que conhecem o papel dos Estados Unidos da América na promoção e na configuração da globalização e verificam agora que o Presidente eleito tem como vontade e como legitimidade o projecto do repúdio da globalização e da afirmação do isolacionismo nacionalista. Mas a grande surpresa está reservada para os que esperam que conseguirão responder aos efeitos negativos da globalização com o refúgio no isolacionismo soberano na escala nacional: por muito que tenham perdido com a globalização, perderão ainda mais com o nacionalismo e com o radicalismo da procura de bodes expiatórios para as suas próprias incapacidades.

 

É por isso que se deve levar a sério Trump (e Louçã). Só Trump poderá mostrar aos seus eleitores que a vontade política não é o mesmo que possibilidade política e que a vitória (eleitoral) pode ser o vestíbulo para a derrota (estratégica). 

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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