David Bernardo
David Bernardo 14 de março de 2017 às 19:50

"We don't need no education"

Nunca pensei em ser professor. A verdade é que nunca gostei muito de ir às aulas. Não porque não tivesse curiosidade ou interesse, mas não era a minha forma de aprender.

Sempre aprendi mais a experimentar. Hoje em dia dou aulas em três países, em algumas das melhores escolas. É uma paixão e uma das minhas formas de contribuir para um futuro melhor. No entanto, o mundo mudou, mas a educação não tem acompanhado o mesmo ritmo.

 

Os exemplos são muitos. Segmentamos os alunos pela idade, tem x anos, logo vai para a escola e não podemos deixar ninguém chumbar porque "desmotiva". E todos têm de aprender da mesma forma. Esta segmentação deixou de ter sentido, já que a tecnologia permite personalizar o processo de aprendizagem para cada aluno, da melhor e mais adequada forma e ao seu ritmo.

 

Incutimos nos alunos que o objetivo também não é apenas aprender, mas conseguir ter boas notas nos exames e como nós próprios aprendemos assim, achamos normal. Quantos pais estão mais preocupados com o que os filhos aprendem do que com as notas?

 

A sala de aula também deve ser um espaço de discussão e troca de ideias. Aulas onde os alunos vão ouvir um monólogo aborrecido de um professor não têm sentido. Será muito melhor se os alunos tiverem materiais multimédia e exercícios para aprender as bases e teoria e chegarem à sala de aula com um nível mínimo, chama-se a isto educação adaptativa.

 

A memória é outro conceito arcaico. Lembro-me de ter de decorar as capitais do mundo porque era cultura geral (usado para justificar muito conhecimento irrelevante).  Até poderia ter sentido dado que a informação até há pouco tempo estava nas aborrecidas bibliotecas, difíceis de consultar. Hoje em dia todos temos quase todo o conhecimento da humanidade no telemóvel. Mais do que memorizar temos de preparar os estudantes para lidar com dados. Isso quer dizer: recolher informação (e de fontes credíveis), estruturá-la e analisá-la, e finalmente tomar decisões sobre ela.

 

Espera-se que nos próximos 20 anos possam desaparecer cerca de 40 a 60% dos empregos atuais. Temos de preparar os alunos para aprender a aprender, a mudar e a serem seres humanos completos. E não só os "jovens", há que ser estudante a vida toda. Tirar o "canudo", como se costuma dizer, com 22 e nunca mais estudar não funciona. Quem quer ser tratado por um médico que não se atualizou em 30 anos?

 

Tudo isto tem de ser feito sem descuidar a disciplina e o rigor. Ao contrário de muitos que defendem o conceito de "millennials" (que entendo ser uma história que alguém inventou para vender livros de marketing), o trabalho duro e a disciplina são uma componente grande do sucesso.

 

Dizer que os jovens não são como os de antigamente e são uma geração perdida parece-me um disparate. Nas minhas aulas na Universidade Nova em Lisboa tenho tido o prazer de ter como alunos pessoas fantásticas, inteligentes e preparadas.

 

A tecnologia traz muitas soluções relevantes. Não da forma que muitos professores "modernos" fazem, ao deixar usar livremente telemóveis e computadores nas aulas, mas através de dados, de educação à distância, adaptada, com realidade virtual, entre outras. De qualquer forma isto são ferramentas, pois na fase anterior é preciso repensar a estratégia de educação e reeducar os nossos educadores.

 

Ao contrário da canção dos Pink Floyd, "We do need an education", mas uma adaptada ao mundo atual. Trabalho de casa para pensar.

 

Partner litsebusiness.com e professor de e-commerce e marketing digital na Nova SBE

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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