Bruno Faria Lopes
Bruno Faria Lopes 09 de novembro de 2017 às 21:00

Web Summit: antes parolos que provincianos

Podemos alimentar as nossas pequenas irritações com a Web Summit, mas tomá-las pelo todo é sinal da ignorância ou, na hipótese menos benigna, reflexo de provincianismo e ressentimento. O evento é uma oportunidade – e um bom sinal para um pequeno país que há não muito tempo vivia isolado, pobre e analfabeto.

É difícil não alimentar alguma irritação com o Web Summit. Uma parte da extensa cobertura mediática pende para aquele ar de excitação típica de um festival de Verão. Os políticos, como o primeiro-ministro e o presidente da Câmara de Lisboa, portam-se como adolescentes deslumbrados. Muitos "empreendedores" (só a palavra irrita) vestem a tempo inteiro o uniforme adolescente da sua cultura empresarial, a t-shirt e os ténis, uma afirmação de que não vêm do "corporate" de fato e gravata, apesar de pertencerem a um meio empresarial agressivo de vencedores e de vencidos. E há Paddy Cosgrave, irritantemente tratado por Paddy, que gere a festa com um certo tom de pastor da Igreja Universal da Tecnologia, para citar aqui o irritado João Miguel Tavares no Público.

 

Mas causa-me ainda maior irritação a irritação de quem avalia o Web Summit inteiramente por estes aspectos secundários. Quem afirma que o país está na mesma apesar desta "febre da tecnologia", quem se queixa de que "não se pode andar na cidade com esta estrangeirada toda aqui", quem aponta o dedo e diz que "há que investigar as práticas laborais do Web Summit" (porque usa voluntários, tal como todos os eventos deste tipo) e quem resume a coisa a "uma feira" que não passa de "uma parolice colectiva" está a fazer um enorme erro de avaliação.

 

Nos casos mais benignos parece-me que esse erro vem do desconhecimento sobre o evento e sobre o momento que Portugal atravessa. O Web Summit não é só uma feira de start-ups onde se trocam contactos e fazem negócios. É, também, um ciclo intenso de conferências. Ali ouvi um astronauta falar do futuro da exploração da Lua, uma empresária explicar como a realidade virtual está a mudar a pornografia, o director de um dos melhores jornais do mundo a falar de "fake news", um padre jesuíta a apresentar uma "app" de oração, um engenheiro a detalhar como nano robôs vão entrar no nosso sangue para reparar o corpo. É, no essencial, um acontecimento interessante de observar e de relatar.

 

O Web Summit e a cultura "tech" por si só não vão libertar Portugal dos seus atrasos e atavismos. Mas esta concentração pouco habitual de investidores, líderes mundiais da indústria e da ciência em Portugal também não é um acaso para desvalorizar. Veio para Lisboa durante três anos porque Portugal, este Portugal tecnológico, está em grande transformação. O Web Summit não faz essa transformação, mas amplia o seu efeito, ajuda a colocar o país no centro das atenções. Não há "parolice" nisto. Esta mudança traz jovens empresários de fora para montarem aqui as suas empresas, retém ou chama parte dos "cérebros" portugueses que saíram para o estrangeiro, atrai profissionais de todo o mundo para viver em Portugal. Isto está a acontecer, é inédito e até pouco noticiado. De caminho, a feira que é uma cimeira ajuda a mudar a imagem do país e a reforçar o turismo, uma indústria que emprega milhares de pessoas e que equilibra as nossas contas externas e públicas. Não é coisa pouca.

 

Podemos alimentar as nossas pequenas irritações com o Web Summit - eu acalentarei sempre as minhas - e não celebrar acriticamente os avanços da tecnologia (o Web Summit também não é só isso). Mas tomar essas irritações pelo todo é fruto da ignorância ou, na hipótese menos benigna, é um reflexo de provincianismo e ressentimento. Talvez seja mais justo encarar o evento (palavra irritante, eu sei) como uma oportunidade - e um bom sinal para um pequeno país que há não muito tempo vivia isolado, pobre e analfabeto. Saibamos estar gratos por isso.  

 

Jornalista da revista Sábado

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mais votado Anónimo Há 1 semana

PREFIRO MAIS SER PROVINCIANO DO QUE PSEUDO-INTLECTUAL!

comentários mais recentes
Anónimo Há 5 dias

Julgo que veio a calhar ou foi planeado? Porque tudo faz sentido: Mortandade, ritual e Panteão. A "dignidade" e "demissão" é mais uma, ainda me lembro da Cosntança!

anonimo Há 5 dias

Neste evento o Costa não diz que foi o governo anterior que o conseguiu para Portugal!... só a lei que permite fazer eventos em monumentos históricos! ...cambada de cobardolas!...estamos a ser governados por canalhada

Anónimo Há 5 dias

Pensava que o Costa e o Medina eram ateus! Para compor o espetáculo só lá faltava a Catarina. Aquilo parecia mais um funeral colectivo de certas tribos africanas.

Anónimo Há 5 dias

Faz mais Madona por portugal que propaganda de capitalistas sem capital entalados

Madona esta triste com lentidao da papelada tuga

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