Bruno Faria Lopes
Bruno Faria Lopes 18 de dezembro de 2016 às 16:32

"Winter is coming"

"True love never dies", diz o cliché cantado por artistas pop e impresso em cartões com corações e ursinhos. Mas nem todos os amores são iguais.

Este de que falo "não pode durar para sempre, não vai durar para sempre", admitiu há uma semana o vice-presidente do Banco Central Europeu. O amor do BCE por títulos de dívida da Zona Euro é mais fruto da necessidade desespero do que da paixão e tem os dias contados. A pergunta a fazer em Portugal é o que vai significar o fim desse amor que nos ampara - a resposta é preocupante e inspira o máximo de cuidado à política.

 

O programa do BCE existe não por amor aos governos dos países do euro - ajudados por esta compressão dos juros -, mas para tentar tirar a Zona Euro do risco de deflação e estagnação prolongada. Quando o BCE recuar no programa isso poderá ser sinal de que o "paciente Zona Euro" está melhor e de que a inflação está mais alta. Para a sustentabilidade da dívida, medida em percentagem do PIB nominal, este é um ponto importante e que abafa parte do efeito do agravamento das taxas soberanas (cerca de 250 pontos base, estima o Banco de Portugal) resultantes do recuo do programa e da normalização do mercado de dívida. (A inflação portuguesa, que não conta para a decisão do BCE, pode contudo vir a ser inferior à do euro.)

 

O risco maior para Portugal não está na subida geral do nível dos juros da dívida alemã (a referência) e, por arrasto, de todos os países do euro. Está noutro lado: ao perceber a retirada dos estímulos o mercado pode penalizar mais Portugal do que os restantes países, levando a um aumento do prémio de risco da nossa dívida. A passagem de uma lógica de estímulo financeiro do BCE para o estímulo orçamental dos governos centra as atenções do mercado nos indicadores económicos fundamentais, maus no caso de um país que ainda tem o "rating" em "lixo". O preconceito e a percepção sobre um "país periférico" com um governo minoritário apoiado por forças de esquerda (que falam, dia sim, dia não, em reestruturar a dívida) ampliam o efeito negativo.

 

Isto é, de resto, o que já temos visto ao longo do ano. O "spread" face à Alemanha superou 400 pontos no auge do conflito entre o Governo e Bruxelas em Fevereiro por causa do Orçamento de 2016 e desde então tem rondado os 300 pontos (quase o dobro do verificado há um ano). E o programa do BCE já está em recuo no caso português por causa dos limites legais às compras (quase esgotados no nosso caso), facto traduzido em maior aversão do mercado face à nossa dívida e em penalização dos juros. Na comunidade financeira portuguesa, para dar um exemplo, não falta quem pense que este prémio de risco vai subir ainda mais. Estamos a falar de mais de 400 pontos em cima de uma subida geral das taxas, ou seja, de valores potencialmente proibitivos para a sustentabilidade da dívida e o acesso de Portugal ao mercado.

 

Estamos, para ser directo, a falar num risco não negligenciável de um novo resgate. As eleições em vários países-chave europeus e a inflação ainda muito baixa compram tempo limitado a Portugal. O Governo deveria, por isso, agir com extrema prudência na frente da imagem externa e das políticas económicas - é possível, de resto, que venha a ser convocado mais cedo do que tarde para dar "provas" desse empenho, no que será um teste à sua sobrevivência. Mesmo com acção política, o agravamento sério das condições de financiamento pode ser inevitável dada a má situação estrutural do país e a incerteza na Europa. Pensar nisso chega para assustar - e para nos deixar um pouco isolados nesta bolha de relaxamento autista em que navega a política portuguesa.

 

Jornalista da revista SÁBADO

 

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