Luísa Bessa 16 de março de 2006 às 13:59

Wishful thinking

Não é apenas para criar valor aos accionistas nem para ser o maior grupo bancário nacional e um dos maiores do espaço ibérico que o BCP lançou a OPA sobre a PT. Em declarações no rescaldo do anúncio de segunda-feira, Paulo Teixeira Pinto reconheceu que ..

Em declarações no rescaldo do anúncio de segunda-feira, Paulo Teixeira Pinto reconheceu que também pretende «forçar o BPI a revelar quais são as suas intenções relativamente ao BCP, onde possui mais de seis por cento do capital».

Com toda a sinceridade acabou a reconhecer que o BCP atacou antes de ser ele próprio objecto de ataque. E assim confirmou uma das especulações que mais animou os analistas desde o início da semana, a de que a OPA do BCPfoi uma jogada de antecipação face ao BPI.

Se a declaração é um sinal de fragilidade em nada retira mérito à oportunidade do movimento. O BCP soube ler os sinais e não hesitou. Mesmo que, como Teixeira Pinto também reconhece, a probabilidade de a OPA não ter sucesso seja «considerável».

Quem conhece de perto o BPI e a forma como o seu núcleo duro se preparou para iniciativas hostis não consegue perceber como o BCP pode ganhar esta guerra. Ou esta batalha.

O pacto de preferência entre os principais accionistas garante que 45 por cento do capital age como um bloco. E se esse bloco não estiver disponível para desblindar os estatutos e/ou vender não há OPA que resulte. Mesmo sendo uma OPA o tipo de acontecimento «disruptivo» que pode fazer alguns mudar de opinião, não parece que o BCP tenha conseguido dar-lhes motivos para o fazer.

Paulo Teixeira Pinto sabe bem que assim é e por isso, além de evitar hostilizar a gestão do BPI, tem mandado apelos claros aos accionistas estrangeiros do BPI. São accionistas que interessam ao BCP, claro. Mas a questão é se eles estariam disponíveis para se comprometer noutro banco, e com outra gestão, ao mesmo nível que o fizeram no BPI  e ignorar que o cimento entre eles tem um nome e chama-se Artur Santos Silva.

Muitas conjecturas têm feito os analistas e os jornalistas sobre as vantagens para o Itaú e o La Caixa em venderem as respectivas posições no BPI. Cálculos que também não levam em conta o que representa o BPI nos balanços do La Caixa e do Itaú – necessariamente pouco.

Tudo somado, a probabilidade desta OPA ter sucesso é efectivamente baixa. Será uma derrota para Paulo Teixeira Pinto? Não necessariamente. Pode perder no mercado esta batalha e ter aberto caminho a um entendimento posterior que resulte naquele que era o primeiro objectivo: a criação do maior grupo bancário português, reunindo as experiências e as competências dos dois bancos novos, nascidos depois das nacionalizações. Negociado entre pessoas de bem e sem nenhum a apontar uma faca ao peito do outro.

Espero que seja mais do que «wishful thinking».

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