João Carlos Barradas
João Carlos Barradas 17 de outubro de 2017 às 20:00

Xi Jinping e o investimento comunista

Promover a competitividade da economia e a segurança nacional são características únicas das empresas estatais chinesas que, consequentemente, devem seguir uma gestão científica sob a orientação do Partido Comunista, reza a doutrina do secretário-geral Xi Jinping.

A propaganda oficial do XIX Congresso avança, ainda, que as empresas estatais contribuem para superar disfunções e distorções dos mercados o mesmo valendo para a participação de militantes comunistas na gestão de firmas privadas.

 

Em prol do desenvolvimento e engrandecimento da nação, a entrada do Estado no capital de empresas privadas, de acordo com teses avançadas por Xi em Outubro de 2016, é imperativo que accionistas e gestores têm de acatar.

 

Capitais públicos e gestores nomeados pelo partido estão, por exemplo, prestes a entrar na gigantesca "holding" da economia digital Tencent, fundada em 1998 por investidores chineses.

 

A disponibilização de capital é outra obrigação dos investidores patriotas no quadro da política de controlo do PC que visa enquadrar empresas estratégicas para alcançar objectivos essenciais de crescimento sustentado.

 

Tencent e outras grandes empresas do universo digital, caso da Alibaba e Baidu, viram-se, assim, obrigadas em Agosto a adquirir participações na China Unicom, firma estatal de telecomunicações criada em 1994.    

 

Proclamando que "a segurança de negócios e investimentos no exterior é uma componente importante dos interesses internacionais da China", o Grupo de Liderança Central para a Reforma Global, uma das entidades de controlo presididas pelo secretário-geral, lançou na Primavera uma campanha para vetar e reduzir substancialmente saídas de capital.

 

Fosun (proprietária da Fidelidade e Luz Saúde), HNA (grupo de Ainão investidor na TAP), Anbang e Wanda foram os maiores "crocodilos financeiros", no dizer de Xi, obrigados a repatriar capitais e a reduzir dívidas a bem da "estabilidade financeira".

 

Investimentos especulativos no estrangeiro, empréstimos bancários de alto risco, branqueamento e fuga de capitais continuam na mira das autoridades que ainda não recuperaram do choque provocado pelos efeitos negativos da desvalorização do yuan em Agosto de 2015.

 

O subsequente reforço do controlo de capitais afastou investidores estrangeiros e prejudicou a internacionalização do yuan que detém uma quota de apenas 1,9 % dos pagamentos internacionais, representando a moeda chinesa 1,1% das divisas detidas por outros estados.

 

A quotização das bolsas chinesas equivale actualmente a 2/3 dos valores atingidos antes da crise do Verão de 2015 e as reservas em divisas cifravam-se em Setembro em 3,1 triliões de dólares, longe do pico de 3,9 triliões atingido em Junho de 2014, partindo dos 2,2 biliões na posse do Estado chinês em 1980 aquando do início das reformas de Deng Xiaoping.

 

É incerto o alcance da política de limitação de riscos de crise financeira motivados, sobretudo, por uma dívida (90% detida por entidades domésticas) que no final de 2016 equivalia a 257% do PIB.

 

O governador do banco central de Pequim considerou recentemente excessiva a dívida de empresas (entre 120% a 130% do PIB) e de entidades governamentais provinciais, municipais e locais, mas classificou de razoáveis as condições de serviço de dívida dadas as baixas taxa de juro.

 

Zhou Xiaochuan adiantou esperar que a economia cresça 7% este semestre, depois de 6,9% entre Janeiro/Junho, graças ao aumento do consumo interno, o que permitiria inverter a tendência de quebra desde que Xi assumiu o poder em 2012, ano em que o crescimento foi de 7,9%.

 

O congresso que abre esta quarta-feira em Pequim confirmará a liderança do secretário-geral por mais cinco anos e, possivelmente, consagrará nos estatutos do partido "pensamento" ou "teses" de Xi Jinping a par do "marxismo-leninismo", "pensamento de Mao Zedong" e "teoria de Deng Xiaoping" como "guia de acção". 

 

Para todos os efeitos, a ditadura do PC, "vanguarda da classe operária, do povo e da nação" nunca largará mão do controlo da economia, das instâncias de poder do Estado e da decisão política.

 

Jornalista

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