Isabel Stilwell
Isabel Stilwell 20 de junho de 2017 às 19:10

"You want to be Esmigalhated in Sintra (III)"  

O difícil não é virar os holofotes para a tragédia. O difícil é seguir os assuntos e persistir na denúncia, até que alguma coisa mude. De preferência, antes que se repita.

Odeio o jornalismo que não segue os assuntos. Que faz parangonas de um acontecimento e depois o esquece, passando ao seguinte, nunca dando o retorno aos leitores do que sucedeu entretanto.

E é por isso que aqui estou, mais uma vez, para o "You Want to be Esmigalhated in Sintra III", sequela do "You Want to be Esmigalhated in Sintra II", publicado em Agosto de 2016, e que já era um "follow up" do primeiro "You want to be Esmigalhated in Sintra", datado de 2014. Mas nem o "Tubarão", nem os Indiana Jones são tão monotonamente idênticos, pela simples razão de que neste filme tudo continua igual. Igual para pior, à medida que o número de visitantes cresce, cinco milhões em 2016, previsivelmente mais em 2017.

 

Igualzinho o risco de ser "esmigalhated" contra um muro, pelo trânsito constante, igualzinha a impossibilidade de usar um carrinho de bebé, porque não há passeios ou os carros ocupam-nos, igualzinha a ingestão de monóxido de carbono, iguaizinhas as filas intermináveis entre a entrada de Sintra e o centro histórico, igualzinha a probabilidade de encontrar uma caravana numa rua estreita, em que nem a própria cabe, igualzinha a cena de pugilato provocada por ânimos aquecidos, mesmo quando a temperatura não está nos 40 ºC. Iguaizinhas, também, as filas de espera para os transportes públicos, que deviam proporcionar uma circulação mais rápida e apetecível, mas estão impedidos de o fazer pelos engarrafamentos que bloqueiam tudo, levando a que se chegue ao monumento, ou ao emprego, cansado e frustrado pela espera.

 

Mas não é só o incómodo e as demoras que estão em causa, nem a publicidade enganosa, mas o perigo real inerente a tudo isto. Oficiosamente os responsáveis pela segurança no centro histórico, bombeiros incluídos, confessam que não sabem o que acontecerá na eventualidade de um acidente grave ou de um incêndio em "horas de ponta". Como poderão chegar a tempo ao centro histórico, ou mesmo à serra, quando as vias estão impedidas, e não há qualquer margem de manobra? Será que, como sempre, será precisa também uma tragédia para que alguém faça alguma coisa - já vi a colisão de dois carros com feridos graves, que esperaram demasiado tempo por uma ambulância que não conseguia chegar, para não ter a certeza de que sim.

 

É claro que, ciclicamente, prometem-se planos redentores de teleféricos e parques e silos, e até se colocam semáforos e "picoletos", mas nada de essencial muda. Por bloqueio dos comerciantes, a vila não se livra da circulação automóvel, como acontece na maioria dos lugares património da humanidade, choram-se os políticos. Em 2015, Basílio Horta enfrentava-os dizendo, "Ninguém nos perdoava que chegássemos ao verão e não fizéssemos nada. Não podíamos conviver com o caos de trânsito que foi o ano passado." E, de facto, é difícil perdoar, mas em 2017 certamente repetirá o mesmo, como já fizeram, antes dele, Fernando Seara e Edite Estrela. Quanto a Marco de Almeida, nem uma linha sobre o assunto nos 10 compromissos para Sintra - a verdade é que o voto da população reduzida e envelhecida da vila velha não conta, e os turistas não votam.

 

Preveem-se, entretanto, nove novos hotéis, os tuk tuks e afins vieram para ficar e a pressão turística promete aumentar. Decididamente, a última esperança reside em Madonna, que os jornais asseguram ter comprado casa num dos pontos mais afetados pela esquizofrenia do trânsito sintrense - será que ainda chega a tempo de se candidatar às próximas eleições? Só se vier de helicóptero.

 

Jornalista

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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comentários mais recentes
Pedro Oram Soares Há 11 horas

Nasci em Sintra, em 1963. Permaneci em Sintra, na mesma casa onde nasci, até 2016. Fugi de SINTRA para Colares e pude conferir o ditado que ouvi dos meus avôs: Sintra nunca foi boa para os filhos como é para os enteados.

Mr.Tuga Há 1 dia

Certo!

É por isso que ha muito deitei a toalha ao chão´!
Cá neste sitio pestilento e atrasado da Europa e OCDE, querer fazer algo, ser interventivo e exercer o dever de CIDADANIA é para os "instalados e acomodados" ser agressivo e conflituoso....

A bosta de TugaLãndia MERECE-SE!

Novisitsintra Há 1 dia

Concordo!...Sintra está impossivel, intransitável e não ê apetecível visitar sujeitando se quem lá põe os pés ao que é descrito...até os turistas se queixam....enfim uma visão de curto prazo dos autarcas que no medio prazo acabará por ter as suas negativas consequencias....triste!

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