Pedro Santana Lopes
Pedro Santana Lopes 07 de fevereiro de 2018 às 22:45

Zoologia económica

O mundo está um verdadeiro zoológico. A questão já não é só de rinocerontes ou de cisnes negros. Os mercados mundiais já parecem mais um elefante numa loja de porcelana. Ao mais pequeno movimento, à mais pequena notícia, temos "loiça partida".

Entre a enorme valorização verificada no segundo semestre do ano anterior e no primeiro mês deste ano e a queda abrupta desta semana, nas bolsas mundiais, há um traço comum: irracionalidade. E essa irracionalidade leva a que vários analistas, na procura da razão, distorçam a realidade. Ainda esta semana, diziam alguns que esta queda se deve consideravelmente ao previsível aumento das taxas de juro resultante da subida da inflação em curso. Adiantavam que a reserva federal pode fazer subir as taxas mais depressa do que o previsto e daí também, esta fuga repentina dos investidores com transferência do mercado accionista para a dívida pública. Ora não é verdade. Há bem mais de um ano que o mundo espera subidas de taxas de juro, mais pela Fed do que pelo BCE. E elas foram sendo adiadas ou muito mitigadas.

 

No meio dessa irracionalidade, há quem considere justificável o aumento acelerado do valor das ações por vários motivos, nomeadamente pelo efeito de crescimento conjugado de diferentes economias e pelo baixo custo do crédito, que dá maior folga às empresas. Seja pelo que for, os índices que medem a dimensão dessas valorizações, quando comparados com os rácios de 1929 ou de 2000, dão para assustar. Só que, ao mesmo tempo, quando se pensa nas razões que terão levado a estes movimentos negativos dos últimos dias, elas são positivas. Baixou o desemprego, aumentou o poder de compra, melhorou a situação líquida das empresas, o que, por si só, levará ao aparecimento da inflação há tanto desejado, como sinal e consequência de que terminou uma quase estagnação da economia com tímidos crescimentos na casa de 1%. Naturalmente, o que se passa com as medidas do Governo nos Estados Unidos, nomeadamente o significativo corte no IRC, o aumento do lucro nas empresas, o grande volume de investimento nas infraestruturas, além dos efeitos ambíguos do protecionismo comercial, tudo gera uma ansiedade que se traduzirá nos exageros, quer das subidas quer das descidas das bolsas mundiais. E a Europa, no meio disto tudo? Mais calma, mais fleumática, à espera do novo governo alemão, mas sem conseguir ficar imune aos desvarios de Wall Street ou do índice Nikkei. E Portugal?

 

Há muito tempo que escrevo e digo que a pedra de toque da atual maioria política é o conteúdo de uma eventual revisão da legislação laboral. No mais, numa economia fortemente dependente, resta-nos rezar para que tudo corra bem lá fora tratando simultaneamente de fazer bem o trabalho de casa. Há empresas, com alguma dimensão, que numa semana perdem e recuperam, 30 a 40 % do seu valor no extraordinário mercado de capitais da praça de Lisboa. Irracionalidade por irracionalidade, também queremos disputar a primazia. Entre o rinoceronte cinzento, o cisne negro dos lados do Oriente e o elefante arco-íris da loja de porcelana dos mercados de capitais, tenhamos confiança de que a arca de Noé se salvará e que talvez até nem haja tormenta tão cedo. Apesar de tudo, o crescimento da economia chinesa estabilizou, o sistema financeiro europeu está um pouco mais resistente, as economias mais frágeis europeias vão resistindo à diminuição do volume de dívida comprada pelo BCE, há novo governo na Alemanha, a Comissão Europeia reviu em alta o crescimento para Portugal para 2018. Costuma-se dizer, que uma andorinha não faz a primavera, mas neste caso já são várias as que se anunciam.

 

Advogado

 

Artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

A sua opinião6
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar
mais votado Ciifrão Há 2 semanas

O Santana também percebe de economia, é fantástico o que este homem sabe.

comentários mais recentes
Ciifrão Há 2 semanas

O Santana também percebe de economia, é fantástico o que este homem sabe.

Caro Sant'Anna Llopes, Há 2 semanas

Você é um autêntico capitalista popular

saraiva14 Há 2 semanas

Olha-me este artista agora! Também percebe de mercados financeiros! E fala com pompa! Como de costume! Sempre por cima! Então, mas este artista, nunca mais se enxerga!? E nunca mais desaparece!? Tenho que passar toda a minha vida e levar com isto!?

Anónimo Há 2 semanas

A isto chamaria especulação financeira.A vida é curta e a espera longa.Sendo assim há q agitar os mercados para funcionarem com perspetiva de curto prazo.As finanças não esperam nem respeitam a economia querem resultados imediatos ou quase,daí esta movimentação de açoes etc. para obterem mais valias

ver mais comentários