Fernando  Sobral
Fernando Sobral 10 de janeiro de 2017 às 19:27

Zygmunt e os nossos dias

Zygmunt Bauman, um dos mais notáveis filósofos das últimas décadas, alertou-nos para os dias líquidos em que vivemos. Onde nada é feito para durar, ou seja, para ser sólido.

Vivemos num mundo de incertezas, onde cada um está por si. Bauman deixou-nos, mas as suas inquietações mantêm-se. Num dos seus últimos, e brilhantes textos, demonstrava-nos como Donald Trump tinha chegado a Presidente dos EUA, como um líder que "decide". E como ele era o fruto quase perfeito da hegemonia ideológica neoliberal das últimas décadas, baseada no princípio de que a força dos seres humanos se baseia na capacidade para quebrar as regras do jogo, em vez de jogarem segundo o que está estabelecido pelo "establishment", o seu inimigo comum. Os cidadãos, num era de incertezas, desejam isso: um líder forte, que decida. Nada é já duradouro: nem os empregos, nem os produtos consumidos, nem as relações emocionais. O insaciável desejo de novidades faz parte do ADN desta sociedade que foi criada de forma manhosa.

 

A modernidade líquida de Bauman é isso: a insegurança que nos venderam como inevitável. Já poucos pensam em termos da comunidade em que estão inseridos: a sociedade foi individualizada. Só que, ao contrário do que nos fazem crer, isso reforça o poder do Estado e de quem o exerce. Não é por acaso que assistimos ao regresso dos poderes fortes e musculados. O mundo virtual, o caldo da cultura actual, alimentou mais esse desejo de individualidade. Na internet ninguém se compromete: todos se conectam. Da mesma forma que deixou de haver trabalhadores: há colaboradores. A Uber representa esse patamar limite da ligação, antes de a robotização tornar cada vez mais cidadãos dispensáveis. Bauman alertava-nos para isso: no Facebook muitos de nós têm milhares de amigos. Bauman dizia que, ao longo da sua vida, nunca tinha atingido uma centena de amigos. Era porque "amigo" tinha um significado diferente para ele e para os que vivem no Facebook. A modernidade líquida é hoje hegemónica. E está a afogar-nos.

 

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