Daniel Gros
Daniel Gros 10 de junho de 2018 às 14:00

O tiro de Trump no pé

Em vez de se envolverem numa estratégia dispendiosa de escalada com o seu maior parceiro comercial, os líderes da Europa devem engolir o seu orgulho e deixar que Trump siga o seu objectivo, quando insiste em levar a economia dos EUA à ruína.

A primeira salva de tiros na guerra comercial transatlântica foi disparada pelos Estados Unidos, que estão a impor pesadas tarifas sobre as importações de aço da União Europeia (assim como do Canadá e do México). Foi um ataque ao qual a União Europeia prometeu responder. Além disso, o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou uma investigação sobre se as importações de automóveis ameaçam a segurança nacional. Qualquer resposta positiva pode levar os Estados Unidos a escalar do aço para a indústria automóvel, que é vital para a Europa.

 

Infelizmente, parece que são as emoções e a postura política de curto prazo, em vez da lógica económica, que estão a ditar a reacção da UE. Para começar, há uma inconsistência fundamental no discurso da UE (e outros parceiros comerciais dos EUA). A UE argumenta que as tarifas sobre as importações de aço prejudicam principalmente os EUA, e a maioria dos economistas concorda. Mas isso também implica que as medidas tomadas pela UE irão prejudicar sobretudo a Europa.

 

Dado que as tarifas selectivas apontadas pela Comissão afectarão os produtos acabados, e não inputs como o aço, os danos infligidos aos consumidores da UE pelas contramedidas europeias serão menores do que os danos infligidos à economia dos EUA pelas tarifas do aço de Trump. Mas aumentar as tarifas continua a ser um acto de autoflagelação. Os economistas gostam de sublinhar que as medidas de retaliação contra o proteccionismo equivalem a dizer: "Se dás um tiro no pé, eu faço o mesmo".

 

A resposta adequada à afirmação de Trump de que uma indústria siderúrgica maior nos EUA é de interesse nacional deveria ser: "Sr. Presidente, se insiste que a segurança nacional exige que a indústria do seu país receba menores volumes de aço europeu de alta qualidade, nós podemos ajudar. Organizaremos um cartel dos nossos produtores e vamos pedir-lhes que aumentem o preço que cobram aos consumidores norte-americanos".

 

Tecnicamente, isso significaria que a UE concordava com o que eufemisticamente chamamos de "restrição voluntária à exportação" (RVE). De um ponto de vista estritamente económico, isso representa uma alternativa atractiva às tarifas para o país exportador. Com as tarifas de importação sobre o aço anunciadas, os EUA obterão pelo menos algumas receitas. Para o aço, as somas envolvidas seriam moderadas. Por exemplo, uma tarifa de importação generalizada de 25% sobre produtos siderúrgicos poderia render quase 4 mil milhões de dólares por ano, mesmo se as importações caíssem quase para metade (para 16 mil milhões de dólares). Isso é insignificante em relação ao défice orçamental dos EUA, que pode chegar perto de 1 bilião de dólares este ano. Mas se a UE acordasse uma RVE, os produtores europeus teriam recebido esses 4 mil milhões de dólares de receitas mais altas com as vendas, e para eles essa quantia teria sido muito importante, permitindo que investissem num aumento da produtividade e numa produção mais sustentável.

 

Por outras palavras, na medida em que Trump só quer que os aliados reduzam as suas exportações para os EUA, isso pode ser acomodado pelos produtores da UE aumentando os preços e embolsando receitas mais altas - não importando que os consumidores de aço dos EUA subsidiem os produtores de aço estrangeiros.

 

Em vez de revelarem longas listas de produtos sobre os quais a UE irá agora impor tarifas, os líderes europeus devem sinalizar aos EUA que estão dispostos a organizar uma RVE para os seus produtores de aço. Essa é a abordagem adoptada com sucesso pela Coreia, cujos produtores de aço não enfrentam tarifas, porque estão a reduzir as suas exportações cobrando preços mais elevados, podendo assim esperar lucros muito maiores.

 

Naturalmente, a objecção imediata é: "Nós não somos a Coreia. A UE é grande demais para ser manipulada assim". Mas a dura realidade é que a Europa depende do guarda-chuva de segurança dos EUA, e há poucas indicações de que medidas de retaliação da UE possam desviar Trump do seu curso errático. A lógica económica deve vir antes do orgulho político.

 

O facto de uma RVE poder satisfazer a exigência dos EUA também significa que o senso comum subjacente às negociações comerciais não se aplica neste caso. Esse senso comum, apoiado pelos modelos da "teoria dos jogos", tão apreciados pelos economistas, sugere que a retaliação é de facto a melhor estratégia. Mas isso só se aplica uma negociação "normal" em que ambos os parceiros usam a ameaça de tarifas como a sua principal arma. Quando um parceiro (os EUA) se oferece para eliminar as suas tarifas em troca de restrições à exportação, o jogo acaba: é uma oferta boa demais para ser recusada.

 

A UE rejeitou essa oferta, em parte devido a um sentimento de orgulho ferido, mas também porque as regras de concorrência da UE podem dificultar a organização de um cartel de produtores de aço europeus. Além disso, a UE lutou durante muito tempo na Organização Mundial do Comércio para tornar as RVE ilegais. Mas essas subtilezas legais e diplomáticas podem e devem ser superadas para chegar a uma solução que faça sentido, em termos económicos, para a UE.

 

Hoje, o problema é o aço, amanhã podem ser os automóveis, e quem sabe o que outros sectores enfrentarão ainda. Em vez de se envolverem numa estratégia dispendiosa de escalada com o seu maior parceiro comercial, os líderes da Europa devem engolir o seu orgulho e deixar que Trump siga o seu objectivo, quando insiste em levar a economia dos EUA à ruína.

 

Daniel Gros é director do Centro de Estudos Políticos Europeus.

 

Copyright: Project Syndicate, 2018.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

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