Stephen  Roach
Stephen Roach 13 de setembro de 2017 às 14:00

A armadilha da co-dependência entre os EUA e a China

É pura manha política apontar a China, os parceiros norte-americanos do NAFTA, ou mesmo a Alemanha como culpados pela situação, quando a economia norte-americana tem falta de poupança.

Aparentemente em desacordo com o mundo, o presidente dos EUA, Donald Trump, levantou mais uma vez a possibilidade de um conflito comercial com a China. A 14 de Agosto, ordenou que a US Trade Representative começasse a investigar a violação chinesa dos direitos de propriedade intelectual. Ao enquadrar este esforço na Secção 301 do US Trade Act de 1974, a administração Trump poderia impor tarifas elevadas e generalizadas sobre as importações chinesas.

 

Este não é um desenvolvimento inconsequente. Ainda que as alegações possam ter algum mérito, conforme documentado no último "USTR Report to Congress on China’s WTO Compliance", a acção punitiva teria sérias consequências para as empresas e consumidores dos EUA. Goste-se ou não, é um resultado inevitável da relação cada vez mais co-dependente entre as duas maiores economias do mundo.

 

Num relacionamento humano co-dependente, quando uma das partes altera os termos do envolvimento, a outra sente-se desprezada e responde, invariavelmente, na mesma moeda. O mesmo se pode esperar das economias e dos seus líderes. Isso significa que, num conflito comercial, é importante pensar sobre a reciprocidade - especificamente, a resposta da China a uma acção americana. Na verdade, esse foi precisamente o ponto salientado pelo ministério do Comércio da China na sua resposta oficial à jogada de Trump. A China, declarou o ministério, "tomaria todas as medidas adequadas para salvaguardar resolutamente os seus direitos legítimos".

 

Com o foco nas acusações dos EUA à China, está a ser dada pouca atenção às possíveis consequências da retaliação chinesa. Destacam-se três consequências económicas.

 

Em primeiro lugar, impor tarifas sobre as importações de produtos e serviços chineses seria o equivalente funcional a um aumento de impostos sobre os consumidores americanos. Os custos laborais unitários dos produtores chineses são menos de um quinto dos outros grandes fornecedores estrangeiros da América. Afastando a procura dos Estados Unidos do comércio chinês, os custos dos bens importados aumentariam acentuadamente. A subida dos preços das importações e os seus potenciais efeitos sobre a inflação subjacente atingiriam os trabalhadores americanos da classe média, que enfrentaram mais de três décadas de estagnação dos salários reais.

 

Em segundo lugar, as acções comerciais contra a China poderiam conduzir a um aumento dos juros nos Estados Unidos. Os estrangeiros detêm actualmente cerca de 30% de todos os títulos do Tesouro dos EUA, com os últimos dados oficiais a colocarem a propriedade chinesa em 1,15 biliões de dólares em Junho de 2017 - 19% do total das participações estrangeiras e ligeiramente acima dos 1,09 biliões de dólares do Japão.

 

No caso de os Estados Unidos imporem novas tarifas, parece razoável esperar que a China respondesse, reduzindo essas compras, e reforçando a sua estratégia de diversificação de activos, que está em marcha há três anos. Numa era de grandes défices orçamentais dos Estados Unidos – que deverão aumentar ainda mais com os cortes nos impostos e o aumento dos gastos em infra-estruturas da administração Trump – a redução da procura por obrigações do Tesouro por parte do maior detentor estrangeiro poderia levar a uma subida dos custos de financiamento.

 

Em terceiro lugar, com o crescimento da procura interna nos EUA ainda deprimido, as empresas americanas precisam de depender mais da procura externa. No entanto, a administração Trump parece não ter em conta essa componente para o cálculo do crescimento. Está a ameaçar aplicar sanções comerciais não só contra a China - o terceiro maior mercado de exportação da América - mas também contra os parceiros do NAFTA, o Canadá e o México (os dois maiores mercados de exportação da América). Como sugere a patologia reactiva da co-dependência, nenhum desses países pode concordar com essas medidas sem restringir o acesso dos EUA aos seus mercados - uma contra-resposta que poderia prejudicar gravemente a recuperação do sector industrial, que parece tão importante para a promessa de Trump de "Tornar a América grande novamente".

 

Afinal, a alavancagem económica da China sobre a América é em grande parte o resultado do baixo nível de poupança dos Estados Unidos. No primeiro trimestre de 2017, a chamada taxa de poupança nacional líquida - a poupança combinada de empresas, famílias e governo - representava apenas 1,9% do rendimento nacional, muito abaixo da média de mais longo prazo de 6,3% que prevaleceu nas últimas três décadas do século XX. Com falta de poupança e vontade de consumir e crescer, os EUA têm de importar um excedente de poupança do exterior para fechar a lacuna, gerando défices comerciais e de conta corrente maciços com países como a China para atrair o capital estrangeiro.

 

É pura manha política apontar a China, os parceiros norte-americanos do NAFTA, ou mesmo a Alemanha como culpados pela situação, quando a economia norte-americana tem falta de poupança. Fomentar políticas que incentivam uma economia a desperdiçar as suas poupanças e a viver além dos seus recursos determina os défices comerciais - assim como as práticas comerciais aparentemente injustas para o capital estrangeiro.

 

Os EUA mantiveram défices comerciais com 101 países em 2016 - um desequilíbrio externo multilateral enraizado no problema crónico da poupança interna dos Estados Unidos. A solução para este problema não pode ser feita na China. Ironicamente, com as políticas da administração Trump a conduzir provavelmente a défices orçamentais maiores que colocam a economia nacional sob uma pressão descendente adicional, a necessidade de capital chinês de outros países deverá crescer e a armadilha da co-dependência só se tornará mais forte.

 

A América não tem o trunfo na sua relação económica com a China. A administração Trump pode, certamente, exercer pressão sobre a China, e até certo ponto, pode ter bons motivos para o fazer. Mas as questões profundas sobre as consequências de tal pressão foram todas ignoradas. Ser duro com a China e ignorar essas consequências pode ser um erro de proporções épicas.

 

Stephen S. Roach, membro do corpo docente da Universidade de Yale e ex-presidente do Morgan Stanley na Ásia, é o autor de "Unbalanced: The Codependency of America and China".

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

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