Andrew Sheng
Andrew Sheng 29 de agosto de 2014 às 12:58

A futura guerra de classes

O estratega militar alemão do século XVIII Carl von Clausewitz definiu a guerra como a continuação da política por meios diferentes e, tal como o antigo estratega chinês Sun Tzu, acreditava que assegurar a paz significava preparar-se para um conflito violento. À medida que o mundo se torna cada vez mais tumultuoso – uma realidade evidente no renascimento da luta militar na Ucrânia, no caos no Oriente Médio, e nas crescentes tensões no leste da Ásia - tal pensamento não poderia ser mais pertinente.

As guerras são, tradicionalmente, disputas territoriais. Mas a definição de território evoluiu para incorporar cinco domínios: terra, ar, mar, espaço e, mais recentemente, o ciberespaço. Essas dimensões da "guerra de classes" definem as ameaças que o mundo enfrenta hoje em dia. Os gatilhos, objectivos e linhas de batalha específicas de tais conflitos tendem a ser determinados, em diferentes graus, por cinco factores: credo, clã, cultura, clima e moeda. De facto, esses factores já estão a alimentar conflitos em todo o mundo.

 

A religião ou credo é um dos motivos mais comuns da história para a guerra, e o século XXI não é excepção. Consideremos a proliferação de grupos jihadistas, como o Estado Islâmico, que continuam a apoderar-se do território do Iraque e da Síria, e Boko Haram, que se tem empenhado numa campanha brutal de sequestros, atentados e assassinatos na Nigéria. Também houve violentos confrontos entre budistas e muçulmanos em Mianmar e no sul da Tailândia, e entre os islâmicos e católicos nas Filipinas.

 

O segundo factor - clã – manifesta-se no aumento das tensões étnicas na Europa, Turquia, Índia e em outros lugares, impulsionado por forças como a migração e a competição por empregos. Em África, as fronteiras artificiais que foram desenhadas pelas potências coloniais estão a tornar-se insustentáveis, na medida em que as diferentes tribos e grupos étnicos tentam esculpir os seus próprios espaços territoriais. E o conflito na Ucrânia mobiliza a frustração que já fervia em lume brando entre a etnia russa que foi deixada para trás quando a União Soviética entrou em colapso.

 

A terceira fonte potencial de conflito consiste nas diferenças culturais fundamentais criadas pela própria história das sociedades e pelos arranjos institucionais. Apesar de representarem apenas um oitavo da população mundial, os Estados Unidos e a Europa têm mantido, por muito tempo, o domínio económico – são responsáveis por metade do PIB global - e uma influência internacional desproporcional. Mas as novas potências económicas estão a crescer e, cada vez mais, a desafiar o Ocidente, não só em termos de  mercado e de recursos; as novas potências vão procurar infundir a ordem global com seus próprios entendimentos culturais e quadros de referência.

 

É claro que a competição por recursos também será importante, especialmente quando se manifestam as consequências do quarto factor – as alterações climáticas. Muitos países e regiões já estão sob pressão devido à escassez de água, uma realidade que tende a intensificar-se com a mudança climática a provocar desastres naturais e eventos climáticos extremos, como as secas, que se tornam cada vez mais comuns. Da mesma forma, na medida em que os recursos florestais e marítimos se estão a esgotar, a competição por alimentos pode gerar conflito.

 

Este tipo de conflito contradiz directamente a promessa da globalização - ou seja, de que o acesso aos alimentos e energia do exterior permitiria aos países concentrarem-se nas suas vantagens comparativas. Se os conflitos emergentes e as pressões competitivas levam a sanções económicas ou à obstrução das rotas comerciais importantes, a resultante balcanização do comércio global diminuirá os benefícios da globalização de forma substancial.

 

Além disso, a agitação social que muitas vezes acompanha a luta económica poderia levar os países a fragmentarem-se em unidades menores que lutam entre si pelos valores ou recursos. Até certo ponto, isso já está a acontecer, com o Iraque e a Síria a fragmentarem-se em unidades sectárias ou tribais.

 

Por fim, o último factor de risco é a moeda. Desde a crise económica global, as políticas monetárias expansionistas levadas a cabo pelos bancos centrais provocaram fluxos de capital voláteis de larga escala, que atravessaram as fronteiras das economias emergentes, gerando uma instabilidade significativa para estes países e alimentando acusações de "guerras cambiais".

 

O uso extra-territorial dos poderes regulamentares e fiscais - em particular pelos EUA, que têm a vantagem adicional de emitirem a moeda de reserva proeminente do mundo - está a reforçar a visão de que as moedas podem ser manejadas como armas. Por exemplo, os EUA têm balcanizado, efectivamente, o sistema bancário global, exigindo que todos os bancos estrangeiros que operam lá se tornem empresas subsidiárias e que os bancos internacionais com contas de compensação em dólares americanos cumpram plenamente a política fiscal e regulamentar dos EUA e até mesmo a política externa (por exemplo, absterem-se de negociar com inimigos dos Estados Unidos).

 

As pesadas multas impostas a alguns bancos pelos órgãos reguladores dos EUA por violarem as regras - nomeadamente, a multa de 8,9 mil milhões de dólares imposta recentemente ao BNP Paribas - já estão a levar os bancos europeus a repensar os seus custos de conformidade e a rentabilidade de operarem nos EUA. Ao mesmo tempo, os tribunais americanos têm conduzido a Argentina para mais um ‘default’.

 

Mas talvez a mensagem mais forte esteja a ser enviada atarvés das sanções específicas às indústrias de petróleo, finanças, defesa e tecnologia da Rússia, bem como sobre as autoridades russas. Com esta abordagem, os EUA e os seus aliados estão a enviar uma mensagem clara aos que discordem com a política dos EUA: evitem o uso do dólar e de contas bancárias em dólares americanos. Alguma actividade financeira já foi conduzida para as sombras, o que se reflecte no uso da Bitcoin e outras moedas que estão fora do alcance dos reguladores norte-americanos.

 

Um exemplo recente da procura de alternativas à liderança dos EUA é a criação de um Novo Banco de Desenvolvimento e uma eventual reserva central dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). O problema para os EUA é que, neste caso, entre os descontentes estão cinco das principais economias emergentes do mundo, com recursos combinados que ultrapassam os das instituições de Bretton Woods. É altamente improvável que as transações bancárias dos BRICS venham a ser denominadas em dólares norte-americanos.

 

Num discurso recente, o presidente dos EUA, Barack Obama, disse que a questão não é saber se os EUA vão liderar, mas como o irão fazer. Mas, com o credo, clã, cultura, clima e moeda a fazerem com que o mundo se torne cada vez mais alienado da ordem internacional centrada nos EUA, tais declarações podem ser excessivamente optimistas. De facto, na guerra de classes que aí vem, ninguém parece muito certo sobre quem seguir.

 

Andrew Sheng é membro do Fung Global Institute e do Conselho Consultivo para as Finanças Sustentáveis?? do UNEP (sigla inglesa para o Programa Ambiental das Nações Unidas).

 

Direitos de Autor: Project Syndicate, 2014.
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Tradução: Rita Faria