Michael Spence
Michael Spence 14 de junho de 2018 às 14:00

O momento da verdade para a economia italiana

Observadores internacionais e italianos, todos concordariam com isto: Itália tem um enorme potencial económico. Mas o desafio está em desbloqueá-lo, o que exigirá que várias coisas aconteçam.

Itália e a Europa estão num ponto de inflexão. Depois das eleições de Março, em que o anti-sistema Movimento Cinco Estrelas (M5S) e a Liga, de extrema-direita, conseguiram uma maioria parlamentar combinada, e de meses de incerteza, Itália tornou-se o primeiro grande Estado-membro da UE a ser governado por uma coligação populista.

 

O M5S e a Liga questionam abertamente os benefícios da pertença à Zona Euro, embora nenhum dos partidos tenha tornado a saída da moeda única um compromisso específico do seu programa governamental na campanha eleitoral, uma falha que o presidente italiano Sergio Mattarella aproveitou para vetar uma escolha-chave para um ministério. Eles também desprezam a globalização de uma forma mais geral. A Liga, em particular, está obcecada em reprimir a imigração. No plano interno, ambos os partidos prometeram combater a corrupção e derrubar o que consideram um sistema político ao serviços de interesses, introduzindo, ao mesmo tempo, políticas radicais para reduzir o desemprego e redistribuir o rendimento.

 

Ainda assim, não saberemos as dimensões precisas da agenda do M5S/Liga até que a coligação populista comece a governar a sério. Há rumores de que os partidos querem um perdão de parte da dívida soberana de Itália, que está num nível relativamente estável, pouco acima de 130% do PIB. Se o fizessem, seguir-se-ia um confronto ao estilo grego com a União Europeia, com os juros da dívida italiana a subirem rapidamente, especialmente se o Banco Central Europeu decidisse que o seu mandato o impedia de intervir.

 

Num cenário deste tipo, os bancos italianos que detêm actualmente montantes consideráveis ??de dívida pública sofreriam danos substanciais nos seus balanços. E o risco de uma fuga de depósitos não podia ser excluído.

 

Ao contrário da maioria dos países da Zona Euro, o crescimento nominal de Itália (não ajustado à inflação) é muito fraco para produzir uma desalavancagem substancial, mesmo com os juros baixos de hoje. Um aumento nas taxas de juros nominais produziria, assim, rácios de endividamento crescentes e restringiria ainda mais a margem orçamental do governo, com efeitos colaterais adversos para o crescimento e o emprego. E, ao contrário da maior parte do resto da Europa, o PIB real per capita de Itália continua bem abaixo do seu pico pré-crise de 2007, indicando que a restauração do crescimento continua a ser um desafio-chave.

 

Se algum dos riscos que Itália enfrenta se materializará ou não depende se o novo governo aceita a realidade e persegue políticas prudentes para estimular um crescimento mais inclusivo.

 

O resultado em Itália ressoa além da Europa, porque os desenvolvimentos políticos são consistentes com uma retrocesso mundial da globalização e uma exigência crescente por parte do eleitorado que os governos nacionais reafirmem o controlo sobre o fluxo de bens e serviços, capital, pessoas e informação/dados. Olhando para trás, esta tendência mundial parece ter sido inevitável. Durante anos, as forças do mercado global e as poderosas tecnologias modernas superaram claramente a capacidade dos governos de se adaptarem às mudanças económicas.

 

A situação de Itália não é exclusiva. Ainda assim, mais do que muitos outros países, precisa desesperadamente de uma agenda que garanta a estabilidade macroeconómica e incentive o crescimento inclusivo. Isso significa mais emprego, uma distribuição mais equitativa do rendimento e da riqueza e mais oportunidades de empreendedorismo.

 

Sem uma maior inclusão económica, Itália poderá descobrir em breve que a sua principal exportação são jovens talentosos. Os trabalhadores procurarão saídas para as suas competências, criatividade e impulsos empreendedores noutros lugares, e Itália terá perdido um dos principais motores do dinamismo económico, crescimento e adaptabilidade.

 

Fora dos círculos financeiros e económicos, os estrangeiros tendem a ver um lado diferente e importante de Itália. Vêem um país de beleza estonteante que é rico em activos intangíveis, cultura e indústrias criativas, e que é a morada de muitos dos destinos de viagem mais procurados do mundo. Na academia e em certos sectores de negócios sabe-se sobre os seus centros de excelência em ciência biomédica, robótica e inteligência artificial, e que investigadores, tecnólogos e empreendedores italianos figuram, de forma proeminente, em centros de inovação em todo o mundo. E outros, sem dúvida, estão cientes de que os governos italianos tendem a mudar com uma certa frequência, e que a economia e a sociedade raramente sofreram interrupções indevidas por causa disso.

 

Na verdade, observadores internacionais e italianos, todos concordariam com isto: Itália tem um enorme potencial económico. Mas o desafio está em desbloqueá-lo, o que exigirá que várias coisas aconteçam.

 

Para começar, o governo italiano precisa de erradicar a corrupção e demonstrar um compromisso muito mais forte com o interesse público. Muito provavelmente, os populistas estão certos em relação a estes problemas E provavelmente estão certos quando afirmam que é necessário uma reafirmação de maior soberania sobre os principais fluxos da globalização para combater as forças políticas, sociais e tecnológicas centrífugas que estão a percorrer os países avançados.

 

Além disso, Itália precisa de desenvolver os ecossistemas empreendedores que sustentam o dinamismo e a inovação. O sector financeiro está fechado demais e dá muito pouco financiamento e apoio para novos empreendimentos. Existem grandes oportunidades no comércio electrónico, nos sistemas de pagamento móvel e nas plataformas de redes sociais para reduzir as barreiras de entrada e promover a inovação. A China, por sua vez, está a avançar rapidamente nessas áreas, criando oportunidades significativas para os jovens.

 

É claro que, com qualquer tecnologia digital, existem preocupações justificáveis ??com a segurança dos dados, com a privacidade e com aqueles que usam a tecnologia para manipular informações no sentido de minar a coesão social e as instituições democráticas. Mas essas questões não devem impedir a realização do tremendo potencial da tecnologia digital como um motor do crescimento inclusivo.

 

Por fim, vale a pena notar que a colaboração entre governo, empresas e trabalhadores desempenhou um papel fundamental nos países que se adaptaram melhor à globalização e à mudança estrutural induzida pela tecnologia. A colaboração requer confiança e a confiança é estabelecida gradualmente ao longo do tempo. Mas sem isso, as estruturas económicas ossificam, a produtividade diminui, a competitividade é penalizada, e a actividade em bens e serviços transaccionáveis ??migra para outros lugares.

 

Nesta fase, a incerteza sobre o futuro é inevitável. Mas, a menos que um país esteja preparado para aceitar a estagnação a longo prazo, não se adaptar às próximas mudanças não é uma opção. Com um mandato claro para a mudança, o novo governo de Itália poderia implementar uma agenda política vigorosa e pragmática de longo prazo, para gerar um crescimento inclusivo. Caso contrário, o grande potencial do país continuará por concretizar.

 

Michael Spence, laureado com o Prémio Nobel da Economia, é professor de Economia na Stern School of Business da Universidade de Nova Iorque, e conselheiro no Instituto Hoover.

 

Copyright: Project Syndicate, 2018.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

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