Anders Levermann
Anders Levermann 18 de agosto de 2014 às 13:22

O ponto sem retorno da Antártida

As observações por satélite realizadas recentemente confirmaram a precisão de duas simulações de computador independentes que demonstram que a camada de gelo da Antártida ocidental entrou num estado de colapso imparável. O planeta começou uma nova era de consequências irreversíveis relacionadas com as alterações climáticas. O que nos resta saber é se ainda poderemos fazer o suficiente para evitar que aconteça noutros locais.

Os últimos estudos revelam que há zonas cruciais do sistema climático mundial que, apesar da sua grande dimensão, são tão frágeis que a actividade humana pode perturbá-las irremediavelmente. É inevitável que quanto mais aqueça o planeta, maior será o risco de que outras partes da Antártida cheguem a um ponto de inflexão similar; de facto, hoje sabemos que a Bacia de Wilkes da Antártida oriental, tão grande ou inclusivé maior do que a camada de gelo da área ocidental, poderá estar igualmente numa situação de vulnerabilidade.

 

Não há muitas actividades humanas cujo impacto possa ser razoavelmente previsto com décadas, séculos ou mesmo milénios de antecipação. Uma delas são os resíduos nucleares; outra são as emissões de gases de efeito estufa e os seus efeitos sobre o aquecimento global e a subida do nível do mar.

 

De facto, o último relatório do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) assinala em termos muito fortes que é "praticamente uma certeza" que o nível do mar continuará a subir nos próximos séculos ou milénios. Mais ainda, o ritmo de subida será maior quanto mais gases emitirmos.

 

Mas as últimas revelações sobre a Antártida são diferentes. Mais do que reagir ao aquecimento global com padrões de mudança graduais e previsíveis, a camada de gelo da Antártida ocidental passou repentinamente para um novo estado. O derreter de uma quantidade relativamente pequena abaixo da plataforma de gelo do Mar de Amundsen empurrou a sua linha de apoio até à parte superior de uma colina sub-glaciar, a partir da qual está agora a mover-se em direcção abaixo. Em poucas palavras, bastou um empurrão térmico para dar início a uma dinâmica interna que vai seguir o seu próprio ritmo, independentemente das acções que os humanos possam empreender para a impedir.

 

Não é completamente claro se os humanos causaram esta situação – embora nada parecido tenha acontecido no Holoceno, de 11.500 anos de duração, antes de começarmos a interferir no equilíbrio energético do planeta. Mas esse não é o ponto. O que é importante é reconhecermos a existência de partes gigantescas do sistema climático da Terra – como a camada de gelo de três quatrilhões de toneladas da Antártida ocidental – que podem sofrer processos irreversíveis se se eleva um pouco a temperatura em locais chave.

 

O risco já não é apenas teórico. Pela primeira vez, as observações e as simulações por computador apontam para a mesma conclusão: o enorme sector do mar de Amundsen da Antártida ocidental começou uma descarga irreversível de gelo e nada pode agora interromper o esvaziamento de toda a bacia: chegou a um ponto sem retorno.

 

Por isso temos que prestar atenção a outros locais onde haja condições topográficas similares. Se um "bloco de gelo" perto da costa da Bacia de Wilkes derreter ou quebrar em vários icebergs, as suas enormes massas de água vão escoar para o oceano. Ainda que não se saiba com precisão o que poderá desestabilizar esta bacia, podemos estar bastante seguros de que o aumento do aquecimento global, causado pelas emissões de gases de carbono, aumentará este risco.

 

Hoje sabemos com clareza que o nível do mar continuará a aumentar, mas ainda podemos determinar quanto e com que rapidez o fará, se controlamos o grau de aquecimento global que provocamos. As alterações climáticas são causadas pelos Homens, pelo que a boa notícia é que podemos detê-las se reduzirmos estas emissões.

 

Embora o destino da Antártica ocidental esteja selado, ainda podemos evitar o colapso da camada de gelo marinho da Antártida oriental. Isso significa decidir – mais cedo ou mais tarde – que caminho seguir. O caminho actual implica uma maior desestabilização da Antártida; a nossa melhor e última esperança é escolher a via alternativa de um novo sistema energético.

 

Anders Levermann é cientista do sector climático no Potsdam Institute for Climate Impact Research e professor de Dinâmicas do Sistema Climático no Institute for Physics and Astrophysics, da Universidade de Potsdam, Alemanha.

 

Direitos de Autor: Project Syndicate, 2014.
www.project-syndicate.org

Tradução: Raquel Godinho

pub