Federico Fubini
Federico Fubini 13 de fevereiro de 2017 às 17:45

O que se passa com a Alemanha?

A doença de Itália é muito mais aguda do que a da Alemanha, mas ambas são potencialmente graves. Ambos os países precisam de tratamento imediato.

Itália pode ser o "doente da Europa" hoje, mas não é o único país que precisa de medicamentos. Pelo contrário, mesmo a poderosa Alemanha parece estar a adoecer.

 

Itália, para ser franco, está em apuros. Ao longo das duas últimas décadas, o crescimento anual do PIB atingiu apenas 0,46%, e a dívida pública aumentou constantemente, totalizando mais de 130% do PIB hoje. O desemprego manteve-se persistentemente elevado, o investimento está a cair a pique e o sector bancário enfrenta grandes problemas.

 

Igualmente preocupante, o número de mulheres em idade fértil diminuiu em cerca de dois milhões desde a queda do Muro de Berlim, em 1989. E a proporção de trabalhadores activos com formação universitária continua em níveis que não se podem comparar com os de outras economias avançadas.

 

Posto isto, não é de estranhar que Itália e a Grécia, que passou por muitas crises, sejam os países mais fracos da Zona Euro em termos de crescimento do PIB per capita nos últimos três anos. O que é surpreendente é que a Alemanha é o terceiro. A Alemanha é fiscalmente sólida, com uma grande acumulação de poupanças excedentes. Também é altamente competitiva em termos de custo unitário de mão-de-obra, goza das taxas de participação na força de trabalho mais elevadas e beneficia de um fluxo constante de mão-de-obra qualificada de outras partes da Europa.

 

Mas o facto é que o crescimento anual médio do PIB per capita da Alemanha de 0,51% desde 2014 a coloca muito atrás de outros países centrais da Zona Euro - a saber, Áustria, Bélgica, Finlândia e Holanda. Mesmo França, onde o crescimento per capita pouco excede o de Itália, supera ligeiramente a Alemanha.

 

Como é possível que economias tão diferentes como a Alemanha e Itália tenham um desempenho semelhante ao nível do crescimento per capita? Até certo ponto, a explicação pode parecer óbvia. A Alemanha está muito mais próxima do crescimento potencial do que Itália e até mesmo os Estados Unidos, que tiveram mais dificuldades do que a Alemanha em escapar da Grande Recessão. Mas a recuperação mais recente de outros países avançados deveria ter impulsionado o crescimento potencial da Alemanha, uma economia orientada para as exportações.

 

Da mesma forma, a migração poderia afectar o crescimento do PIB per capita. A Alemanha recebeu 2,7 milhões de novos residentes nos últimos cinco anos, dos quais quase um milhão são refugiados. Estes últimos oferecem um impulso keynesiano óbvio, mas não acrescentam muito ao produto potencial.

 

No entanto, os fluxos migratórios para a Alemanha não são propriamente anómalos. O país já havia assistido a influxos líquidos igualmente fortes noutras épocas nas últimas três décadas, sem esses efeitos adversos no crescimento do PIB per capita. Pelo contrário, em muitos casos, os migrantes que chegaram à Alemanha, particularmente os jovens e qualificados, contribuíram para o produto potencial.

 

O verdadeiro culpado do baixo crescimento do PIB per capita da Alemanha tem de ser procurado noutro sítio. De acordo com o Banco de Pagamentos Internacionais, os créditos dos bancos alemães a outros países da Zona Euro - incluindo Áustria, França, Irlanda, Itália, Holanda, Portugal e Espanha - caíram em mais de 200 mil milhões de euros, em conjunto, desde o pico da crise da dívida em meados de 2012. Os créditos sobre Itália estão abaixo dos níveis anteriores ao euro, e em Espanha estão a aproximar-se desse valor. A Alemanha tem vindo a desinvestir até nas principais economias da Zona Euro.

 

O movimento silencioso dos bancos alemães em direcção à desintegração contrasta fortemente com o comportamento dos bancos sediados em França, Itália, Espanha e Holanda, que retomaram a integração financeira europeia ao estabilizarem e, muitas vezes, aumentarem a sua exposição noutros países. Estas tendências divergentes, mais do que a fuga genérica de capitais, explicam parte dos crescentes desequilíbrios no sistema de pagamentos Target 2 da Zona Euro.

 

Porque é que os bancos alemães são os únicos a retroceder na integração? Uma possível razão é que as autoridades financeiras nacionais, cépticas quanto ao futuro do euro, instruíram os bancos a reduzir a sua exposição ao resto da Zona Euro. Outra é que os bancos alemães estão a passar por um mal-estar lento que os reguladores europeus ainda têm de reconhecer plenamente. A sua base de custos é, afinal de contas, a mais elevada do mundo avançado, mas a sua rentabilidade está entre as mais baixas, apesar do seu fardo insignificante de crédito malparado.

 

No entanto, esta resistência é intrigante. Cerca de metade do sistema bancário alemão é propriedade do Estado e, portanto, goza de uma garantia implícita do governo. Na verdade, os bancos alemães receberam 239 mil milhões de euros de auxílios estatais entre 2009 e 2015.

 

Em qualquer caso, a retirada dos bancos alemães da Europa não pode ser benéfica para a confiança, o investimento ou para um sector de serviços dinâmico. E, na verdade, o investimento na Alemanha, no ano passado, foi cinco pontos percentuais inferior aos níveis de 1999, em percentagem do PIB, embora a poupança nacional bruta tenha atingido os níveis mais altos desde que a série de dados do Fundo Monetário Internacional começou em 1980.

 

As autoridades alemãs costumam explicar essa enorme queda citando a parcimónia de uma sociedade em envelhecimento. Mas os desafios demográficos - que são as restrições de amanhã sobre o produto potencial - devem inspirar reformas nos direitos e educação, e não a supressão da procura de hoje. E é aí que reside a verdadeira questão: nenhum país da UE, à excepção de França, implementou tão poucas reformas na última década como a Alemanha.

 

Essa falta de reformas está a começar a manifestar-se. Bancos cautelosos e baixo investimento devem ter tido responsabilidade, desde 2012, no que parece o mais lento crescimento da produtividade total dos factores na Alemanha em três décadas. A grande dependência das exportações - ou seja, a procura de outros países - pode ter distraído o governo alemão de algumas das suas próprias responsabilidades domésticas. Mas é do interesse de toda a Europa - e de Itália, em particular - que a maior economia do continente se torne ainda mais forte.

 

O abrandamento da produtividade está longe de ser exclusivo da Alemanha. Mas, a menos que a Alemanha enfrente as raízes desse abrandamento em casa, corre o risco de sofrer um grande impacto, caso a sua moeda seja fortemente revalorizada, sob a forma de menores exportações e danos ao já fraco sector bancário, resultantes da deflação e das taxas de juro de longo prazo negativas.

A doença de Itália é muito mais aguda do que a da Alemanha, mas ambas são potencialmente graves. Ambos os países precisam de tratamento imediato.

 

Federico Fubini é colunista financeiro e autor de Noi siamo la rivoluzione (Nós somos a revolução).

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

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