Harold James
Harold James 23 de julho de 2018 às 14:00

A união cada vez mais complexa da Europa

A UE é deliberadamente complexa, a fim de permitir a coordenação de uma grande variedade de interesses nacionais. Essa complexidade é boa em tempos normais, mas é problemática em momentos excepcionais, quando o jogo é frenético.

A União Europeia enfrenta actualmente desafios mais severos do que a crise da dívida que ameaçou afundar a Zona Euro no início desta década. As tensões Norte-Sul e Leste-Oeste na Europa continuaram a aumentar desde então, e estão a ser agravadas agora pela crescente incerteza sobre o futuro do governo da chanceler alemã, Angela Merkel. Poderão estas tensões finalmente separar a UE?

 

Logicamente, não há nenhum motivo para a UE estar agora em risco de destruição. Além de ter sido alcançado um acordo sustentável sobre a dívida grega, a Agência de Refugiados das Nações Unidas registou apenas 42.213 refugiados até agora este ano – muito longe dos mais de um milhão de refugiados que chegaram às fronteiras da UE em 2015.

 

No entanto, este ano, temos assistido a um aumento da angústia em relação à migração, no que parece ser uma reacção tardia não só ao enorme fluxo de há três anos como também à sensação de insegurança provocada pela crise financeira global de 2008. Os europeus estão mais preocupados com o futuro do que há uma década, até porque não estão convencidos de que os seus líderes políticos consigam responder de forma efectiva aos desafios actuais.

 

Esses desafios vão muito além da migração e do duradouro debate sobre o euro. Incluem a questão de segurança levantada pelo conflito contínuo na Ucrânia, a questão de como coordenar a política energética, as negociações do Brexit e a ameaça de uma guerra comercial global. A UE não provou estar à altura de enfrentar qualquer uma destas questões, nem mesmo a do comércio (o único domínio que se enquadra totalmente na jurisdição da UE).

 

Em teoria, todas essas questões poderiam ser tratadas em conjunto, numa espécie de "grande acordo". As vantagens de um acordo desse tipo são óbvias: num mundo incerto, a pertença a uma comunidade maior garante protecção e segurança valiosas. Nem todos os países ganhariam em todas as áreas, mas todos ficariam melhor no geral.

 

Por exemplo, enquanto Itália e a Grécia ainda teriam que registar os requerentes de asilo e fornecer assistência médica e social, os seus parceiros europeus apoiariam esse esforço porque beneficiariam de uma fronteira mais forte, policiada por uma força europeia. Da mesma forma, todos os membros da UE ganhariam com a maior resiliência proporcionada pelo maior investimento em transmissão de energia.

 

No entanto, um grande acordo sempre foi uma espécie de quimera na Europa. Um problema chave está na complexidade da UE, que está mal preparada para funcionar no meio do caos, assim como a equipa de futebol altamente disciplinada da Alemanha estava mal preparada para enfrentar as jogadas frenéticas dos adversários mexicanos no início do Mundial deste ano. (Este não é o primeiro caso de um jogo de futebol que assume um significado simbólico na UE: no verão de 2012, no auge da crise da dívida da Zona Euro, a cimeira europeia decisiva ocorreu ao mesmo tempo de um jogo entre Itália e a Alemanha).

 

O mundo de 2018 é uma espécie de jogo caótico. Consideremos a recente cimeira do G7 no Quebeque, onde o comércio esteve no topo da agenda. Esta é uma área em que a UE deve ter um poder considerável de definição de agenda. Mas os seus representantes perderam uma oportunidade de ouro quando o presidente dos EUA, Donald Trump, ofereceu uma alternativa às guerras comerciais que ele próprio lançou: o completo desmantelamento das barreiras tarifárias. Os europeus deveriam ter aproveitado a proposta e insistido na rápida conclusão de um acordo inicial sobre os níveis tarifários do G7.

 

Devemos lembrar-nos que foi exactamente esse movimento que acabou efectivamente com a Guerra Fria. Em 1990, na Casa Branca, o líder soviético Mikhail Gorbachev sugeriu inesperadamente que a adesão à NATO de uma Alemanha reunificada estabilizaria o continente. O presidente dos EUA George H.W. Bush e os seus assessores aproveitaram a oportunidade, levando Gorbachev a selar o acordo rapidamente.

 

No caso de Trump no G7, um acordo para a eliminação de tarifas teria sido bom para todo o mundo, mesmo que Trump mais tarde tentasse renunciar a isso. Neste momento, as barreiras tarifárias não são particularmente altas: a tarifa média ponderada para todos os produtos dos EUA e da UE é de apenas 1,6%. Chegar a zero seria relativamente fácil, e enviaria um poderoso sinal de que não haverá uma escalada, que as cadeias de fornecimento globais não serão interrompidas e que a economia mundial está segura.

 

Naturalmente, um acordo desse tipo levantaria desafios para a UE. Algumas empresas, especialmente no sector agrícola, gozam actualmente de níveis mais altos de protecção; a eliminação das tarifas alteraria, assim, o alinhamento dos interesses internos na UE (e nos EUA).

 

Mas o problema fundamental é que os líderes europeus na cimeira não conseguiram alinhar-se com rapidez suficiente para responder a tempo. A Europa tem demasiadas peças móveis. A UE é deliberadamente complexa, a fim de permitir a coordenação de uma grande variedade de interesses nacionais. Essa complexidade é boa em tempos normais, mas é problemática em momentos excepcionais, quando o jogo é frenético. Nesses momentos, a UE parece-se mais com o império de Habsburgo - um complexo conjunto de nacionalidades onde os satíricos brincavam que a situação era desesperada, mas não séria.

 

O império de Habsburgo tinha o seu potencial grande acordo - uma grande reorganização política que teria alterado o peso político das suas nacionalidades - mas nunca foi concluído. Em vez disso, a elite política começou a acreditar que apenas um desafio político externo - no caso, uma guerra breve - poderia resolver o problema. Mas a Primeira Guerra Mundial não foi uma guerra breve e, longe de resgatar o império, destruiu-o.

 

Depois de 1918, surgiu a nostalgia pelo antigo império. Parecia melhor, mais tolerante e ainda mais capaz do que o grupo de Estados-nações concorrentes que o sucederam. Os europeus de hoje deviam tomar nota. Se permitirem que os medos do presente continuem a sufocar a acção, poderão ver-se em breve a desejar uma oportunidade perdida.

 

Harold James é professor de História e Relações Internacionais na Universidade de Princeton e membro sénior no Center for International Governance Innovation.

Copyright: Project Syndicate, 2018.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

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