Harold James
Harold James 02 de maio de 2018 às 14:00

Reimaginar a segurança e repensar a economia

O melhor futuro será aquele em que governos e corporações multinacionais não controlem todas as informações. Assim, o desafio é conceber soluções geralmente aceitáveis ??baseadas na cooperação e não na destruição de visões concorrentes.

Agora que o mundo enfrenta uma guerra comercial e a possibilidade crescente de o Ocidente se ver envolvido numa guerra real, seria bom reconsiderarmos as lições do período entre guerras.

 

Muitos dos distúrbios económicos e de segurança de hoje são frequentemente atribuídos à crise financeira global de 2008. Além de expor as falhas nas políticas económicas convencionais, a crise e as suas consequências aceleraram o reequilíbrio global do Atlântico para a região Ásia-Pacífico, ao mesmo tempo que alimentaram o descontentamento político e a ascensão de movimentos anti-sistema no Ocidente.

 

Da mesma forma, acredita-se que a Grande Depressão dos anos 1930 produziu uma mudança sísmica no pensamento económico. De acordo com a narrativa convencional, os responsáveis políticos da época, que juraram nunca repetir os erros que levaram à crise, criaram novas medidas para superar o mal-estar prolongado das suas economias.

 

O reordenamento conceptual e institucional da economia que se segue é geralmente creditado a uma figura imponente: o economista britânico John Maynard Keynes, que publicou The General Theory of Employment, Interest, and Money em 1936. Keynes também orquestrou a conferência de Bretton Woods de 1944, que levou à criação do Banco Mundial, do Fundo Monetário Internacional e da ordem monetária global do pós-guerra.

 

De acordo com o colaborador e biógrafo de Keynes, Roy Harrod, Keynes gozou de uma presença divina nas conversas de Bretton Woods. Mas alguns dos outros contemporâneos de Keynes, principalmente o economista britânico Joan Robinson, sempre duvidaram que ele merecesse tanto crédito por inaugurar a nova ordem.

 

Afinal, o verdadeiro motivo pelo qual o pensamento keynesiano se impôs foi porque o seu método de cálculo do consumo agregado, investimento e poupança provou ser inestimável para o planeamento militar americano e britânico durante a Segunda Guerra Mundial. Com uma contabilidade nacional consistente, os governos poderiam fazer melhor uso dos recursos, desviar a produção de fins civis para fins militares e reduzir as pressões inflacionistas, mantendo, assim, o consumo e impedindo a agitação civil.

 

As mesmas ferramentas acabaram por ser igualmente úteis na reorientação da economia do pós-guerra para um maior consumo das famílias. Mas a questão é que a revolução na economia, seguida pelos milagres económicos da era do pós-guerra, foi um produto do cálculo em tempos de guerra, e não da reflexão em tempos de paz. Preocupações de segurança e a necessidade de garantir a estabilidade doméstica e internacional tornaram os responsáveis pelas políticas públicas mais dispostos a desafiar a antiga ortodoxia económica.

 

Esta era dá lições importantes para o presente. Actualmente, muitos economistas queixam-se que a crise financeira não levou a repensar seriamente a economia convencional. Não há equivalentes modernos para Keynes. Em vez disso, as questões económicas e financeiras tendem a ser discutidas em silos intelectuais, por especialistas que dão pouca atenção às preocupações de segurança ou à interacção entre objectivos nacionais e internacionais.

Ainda assim, tal como no período entre guerras, há ameaças de segurança hoje que farão com que repensar os pressupostos económicos seja necessário, se não mesmo inevitável. Embora a crise financeira não tenha levado a um cálculo intelectual holístico, três desafios mais amplos para a ordem internacional liberal desde 2016, quase certamente o farão.

 

O primeiro desafio é a ameaça existencial das alterações climáticas, que terão consequências geopolíticas de longo alcance, particularmente para áreas que já enfrentam escassez de água, e para países tropicais e cidades costeiras que já sentem os efeitos do aumento do nível do mar. Ao mesmo tempo, alguns países terão ganhos temporários, devido a estações de cultivo mais longas e maior acesso a minerais, hidrocarbonetos e outros recursos em regiões polares.

 

Em última análise, reduzir a quantidade de gases de efeito estufa na atmosfera servirá o bem comum. Mas, sem um mecanismo internacional para compensar os que estão mais em risco, os países individuais vão pesar os trade-offs de reduzir as emissões de gases de efeito estufa de forma diferente.

 

O segundo desafio global é a inteligência artificial e a sua previsível disrupção dos mercados de trabalho. A IA ameaça não apenas o emprego, mas também a segurança, porque tornará obsoletas muitas tecnologias que os Estados usam para defender as suas populações e impedir a agressão. Não é de admirar que grandes potências como os Estados Unidos e a China já estejam a competir para dominar a IA e outras tecnologias de big data. À medida que o fazem, estão a jogar um jogo cada vez mais perigoso e instável, no qual cada virada tecnológica poderá transformar a política de forma dramática, tornando inúteis as antigas defesas.

 

O terceiro desafio é a revolução monetária que está a ser conduzida por tecnologias como a blockchain, que promete criar dinheiro não-estatal. Desde Bretton Woods, o domínio monetário tem sido uma forma de poder, particularmente para os EUA. Mas modos alternativos de dinheiro oferecerão aos governos e aos actores não-estatais novas formas de afirmar o poder ou contornar as estruturas de poder existentes. Criptomoedas como a bitcoin já estão a afectar os mercados e podem, um dia, alterar as relações financeiras nas quais as sociedades industriais modernas se baseiam.

 

Na nova geografia política, China, Rússia, Índia e outros países encaram cada um desses desafios como oportunidades para moldar o futuro da globalização nos seus próprios termos. O que perspectivam é muito diferente do modelo do final do século XX. A China, por exemplo, considera a IA como uma ferramenta para remodelar a organização política através da vigilância em massa e do pensamento dirigido pelo Estado. Ao substituir o individualismo pelo colectivismo, isso poderia levar a política global numa direcção profundamente iliberal.

 

Felizmente, existem caminhos alternativos pela frente. Ao repensar a economia e a segurança, precisaremos de desenvolver uma abordagem que promova a inovação dentro de uma estrutura de deliberação coordenada sobre os futuros arranjos sociais e políticos. Precisamos de aplicar a imaginação humana e a criatividade não apenas à criação de novas tecnologias, mas também aos sistemas que irão governar essas tecnologias.

O melhor futuro será aquele em que governos e corporações multinacionais não controlem todas as informações. Assim, o desafio é conceber soluções geralmente aceitáveis baseadas na cooperação e não na destruição de visões concorrentes.

 

Harold James é professor de História e Relações Internacionais na Universidade de Princeton e membro sénior no Center for International Governance Innovation.

 

Copyright: Project Syndicate, 2018.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

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