Sonhos dourados

A economia chinesa continua a desacelerar; a taxa de crescimento da Índia desceu fortemente face ao que se observava há alguns anos. Em contrapartida, apesar da má decisão de permitir que se activassem os cortes orçamentais automáticos, a economia norte-americana parece estar a curar-se gradualmente.

 

Em princípio, guardar ouro é uma forma de apólice de seguro contra a guerra, o Armagedão financeiro e uma forte depreciação da moeda. E, desde o início da crise financeira global, o preço do ouro tem sido frequentemente encarado como um barómetro da insegurança económica mundial. Assim sendo, será que a queda dos preços do ouro representa um voto de confiança na economia global?

Dizer que o mercado aurífero revela todas as características clássicas de uma bolha que estoirou é simplificar demasiado a questão. Não há dúvida que a forte subida do ouro até ao seu pico, a partir de um nível em torno de 350 dólares por onça em Julho de 2003, deixou os investidores a salivar. O preço subia hoje porque todos se convenceram de que subiria ainda mais amanhã.

Os médicos e dentistas começaram a vender acções e a comprar moedas em ouro. A procura de joalharia em ouro na Índia e na China disparou. Os bancos centrais dos mercados emergentes começaram a diversificar as suas reservas, vendendo dólares e comprando ouro.

O caso da compra de ouro teve várias componentes de peso. Há 10 anos, o ouro era vendido a um preço bem abaixo da sua média de longo prazo ajustada à inflação, e a integração dos três mil milhões de cidadãos dos mercados emergentes na economia global só poderia significar um aumento gigante de longo prazo na procura.

Esse elemento da história, aliás, continua válido. A crise financeira global contribuiu para a atractividade do ouro, devido inicialmente ao receio de uma segunda Grande Depressão. Posteriormente, alguns investidores começaram a recear que os governos dessem rédea solta à inflação para diminuírem o encargo da crescente dívida pública e para combaterem o desemprego persistente.

Quando os bancos centrais optaram por políticas de taxas de juro em torno do zero, ninguém se preocupou com o facto de o ouro não render juros. Por isso, não faz sentido dizer que o aumento das cotações do ouro foi puramente uma bolha. Mas é também verdade que, à medida que o preço subia, cada vez mais investidores ingénuos quiseram comprá-lo.

Nos últimos tempos, é claro, os fundamentais inverteram um pouco e o frenesim especulativo inverteu ainda mais. A economia chinesa continua a desacelerar; a taxa de crescimento da Índia desceu fortemente face ao que se observava há alguns anos. Em contrapartida, apesar da má decisão de permitir que se activassem os cortes orçamentais automáticos, a economia norte-americana parece estar a curar-se gradualmente. As taxas de juro globais aumentaram 100 pontos base desde que a Reserva Federal dos EUA começou a sugerir – bastante prematuramente, na minha opinião – que iria começar a reduzir os estímulos à economia, traduzidos na "flexibilização quantitativa".

Uma vez que a Fed se limita a sublinhar a sua forte vontade de conter as tendências inflacionistas, é ainda mais complicado dizer que os investidores precisam de ouro como cobertura contra uma elevada inflação. E à medida que os médicos e dentistas - que há dois anos compravam moedas de ouro – começam agora a desfazer-se desses activos, não está ainda claro onde é que a espiral de queda dos preços irá deter-se. Há quem aponte a barreira psicológica dos 1.000 dólares por onça.

Com efeito, os argumentos a favor ou contra o ouro não mudaram assim tanto desde 2010, quando escrevi sobre o assunto. Em Outubro desse ano, o preço do ouro – o activo especulativo baseado na confiança por excelência - estava a subir, tendo acabado de atingir os 1.300 dólares. Mas a verdadeira razão para ter ouro – tanto nessa altura como agora – nunca foi de ordem especulativa. Pelo contrário, o ouro é uma cobertura contra o risco. Se você for um investidor com um património líquido elevado, ou um fundo de riqueza soberana, faz sentido deter uma pequena percentagem dos seus activos em ouro como cobertura contra acontecimentos extremos.

Deter ouro pode também fazer sentido para a classe média e para as famílias pobres nos países – por exemplo, na China e na Índia – que limitam significativamente o acesso a outros investimentos financeiros. Para a maioria das outras pessoas, o ouro é apenas mais uma aposta onde se pode entrar. E, como acontece com todas as apostas, nem sempre é necessariamente um investimento lucrativo.

A menos que os governos estabeleçam com clareza o preço do ouro, tal como o fizeram antes da I Guerra Mundial, o mercado aurífero será inevitavelmente arriscado e volátil. Num estudo publicado em Janeiro de 2013, os economistas Claude Erb e Campbell Harvey consideraram vários modelos possíveis para determinar o preço fundamental do ouro e concluíram que a evolução do preço real metal amarelo não está vinculada com grande solidez a qualquer um deles. Em vez disso, o preço do ouro parece muitas vezes à deriva, bastante acima ou bastante abaixo do seu valor fundamental de longo prazo, durante períodos prolongados. (Este comportamento, evidentemente, é semelhante ao de muitos outros activos financeiros, como as taxas de câmbio ou os preços das acções, se bem que as flutuações na cotação do ouro possam ser mais extremas).

Os fanáticos do ouro citam por vezes dados históricos que sugerem que o valor de longo prazo do ouro se tem mantido estável ao longo dos milénios. A título de exemplo, o frequentemente citado estudo de 1998 de Stephen Harmston evoca o facto de uma onça de ouro dar para comprar 350 pães no tempo de Nabucodonosor, rei da Babilónia, que morreu em 562 A.C. Tirando o facto de o pão na Babilónia ter sido provavelmente mais saudável do que o produto altamente refinado que vemos hoje em dia, o preço do ouro não oscilou muito desde então, dando provavelmente agora para comprar 600 pães.

É claro que não possuímos os dados anuais dos preços do ouro na Babilónia. Podemos partir do princípio, atendendo às guerras e outras incertezas, que os reais preços de mercado naquela época, tal como agora, eram bastante voláteis.

Assim, a recente queda dos preços do ouro não alterou verdadeiramente as razões para se investir neste metal precioso, num ou noutro sentido. Sim, os preços podem facilmente quebrar a barreira dos 1.000 dólares por onça; mas, uma vez mais, deverão subir. Enquanto isso, os responsáveis pelas políticas monetárias deveriam ser prudentes na forma como interpretam a queda dos preços do ouro enquanto voto de confiança nas suas políticas.

© Project Syndicate, 2013.

www.project-syndicate.org

Tradução: Carla Pedro

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