Michael Boskin
Michael Boskin 01 de julho de 2018 às 14:00

A quádrupla ameaça de Itália à Europa

Se a recuperação cíclica da Europa não se traduzir em crescimento sustentado a longo prazo, a ameaça quádrupla dos bancos, dívida, reacção anti-imigração e debilidade económica de Itália testarão a resiliência da moeda única - e da integração europeia em geral.

O novo ministro da Economia e Finanças de Itália, Giovanni Tria, tentou assegurar aos mercados financeiros que o novo governo de coligação do Movimento Cinco Estrelas/Liga não abandonará o euro nem aumentará o défice orçamental, violando as regras orçamentais da UE. Mas a Europa não está livre de perigo. O governo populista e eurocéptico de Itália aumentou ainda mais os riscos de médio prazo do sector bancário do país, da dívida pública, das políticas trabalhistas e de migração e do modelo de crescimento.

 

Este mês de Novembro marcará o 25º aniversário do Tratado de Maastricht, que transformou a Comunidade Económica Europeia na União Europeia; e no próximo ano é o 20º aniversário do lançamento do euro. Cada uma destas instituições não só sobreviveu, como se expandiu, apesar de desafios como a crise da dívida soberana da Grécia e a decisão do Reino Unido de deixar a UE. Mas ainda que a Zona Euro tenha resistido a essas tempestades, há uma série de questões por resolver que ainda a atormentam.

 

Nos últimos anos, o crescente sentimento nacionalista e anti-imigrante deu origem a partidos populistas dispostos a desafiar as regras da UE e os burocratas em Bruxelas. E desde a crise financeira de 2008, muitos bancos europeus têm estado cambaleantes, e os níveis de dívida soberana, das empresas e das famílias em vários países europeus permanecem elevados. Embora o desemprego tenha caído, a taxa ainda é o dobro da dos Estados Unidos. E depois de um aumento recente, a taxa de crescimento económico global da Europa caiu mais uma vez.

 

Além disso, a população da Europa está a envelhecer, mas as tentativas de reverter transferências exorbitantes, impostos elevados e regulamentações inflexíveis tiveram um sucesso limitado. Um exemplo perfeito são as reformas das pensões, impostos e mercado de trabalho propostas pelo presidente francês Emmanuel Macron, que provocaram protestos a cada passo.

 

De forma geral, a Europa sofreu por muito tempo de crescimento tépido, dívida soberana excessiva - que se tornará mais onerosa quando as taxas de juro finalmente subirem - e bancos fracos e ineficientes. E, olhando para o futuro, novos problemas no sector bancário podem revelar-se particularmente desafiadores, uma vez que mais da metade de todo o crédito concedido na UE vem dos bancos - a percentagem chega a 70% na Alemanha e Itália. Em comparação, apenas 35% do crédito concedido nos EUA vem dos bancos.

 

Além disso, dificuldades económicas contínuas e fraca competitividade numa série de países da Zona Euro reflectem a ausência de uma moeda para depreciar. A perda da soberania monetária, combinada com as tensões demográficas e a crise dos migrantes e refugiados, ajuda a explicar porque é muitos eleitores passaram a apoiar partidos populistas e nacionalistas. Em Itália, no Reino Unido e noutros Estados-membros importantes, há uma crescente hostilidade contra as regras orçamentais comuns e os princípios básicos da UE, como a livre circulação de pessoas.

 

Os problemas da Europa tendem a reforçar-se mutuamente. O crescimento anémico torna mais difícil resolver o problema do crédito malparado dos bancos, o que, por sua vez, impede o crescimento, alimentando o descontentamento público. Mesmo que o novo governo de Itália tenha descartado um confronto com o euro no curto prazo, ele terá que enfrentar essas questões económicas. Tria afirma que o aumento da despesa e a redução de impostos não estão em cima da mesa; mas foi precisamente essa a combinação de políticas acordada pelos partidos da coligação aquando da formação do governo.

 

Os eleitores nas democracias apoiam frequentemente aumentos da despesa e reduções dos impostos, apesar do seu impacto na dívida do país. Mas a dívida pública de Itália, que está nos 130% do PIB, já é a mais alta da Europa. Se as autoridades acabarem por desrespeitar as regras orçamentais da UE, os governos de outros Estados-membros podem sentir-se encorajados a fazer o mesmo - especialmente se houver pressão política interna nesse sentido. Graças aos juros extremamente baixos, Itália conseguiu manter o seu défice abaixo de 3% do PIB, de acordo com o Pacto de Estabilidade e Crescimento da UE. Mas quando os custos dos empréstimos começarem a subir, a lua-de-mel da dívida de Itália chegará ao fim.

 

Para piorar as coisas, uma grande parte da dívida soberana de Itália é detida pelos seus próprios bancos instáveis. Há muito que os italianos rejeitam a directiva de "bail-in" da UE - que exige que os credores sofram perdas em caso de falências bancárias - porque a propriedade dos bancos italianos, que emergiram das cidades-estados históricas do país, é fortemente localizada. Assim, o colapso de um banco italiano prejudicaria gravemente a economia da região circundante, ao passo que os efeitos de um colapso bancário dos EUA seriam muito mais dispersos.

 

Outra área importante é a imigração. Desde 2011, 750.000 migrantes chegaram a Itália vindos de todo o Mediterrâneo. E agora Matteo Salvini, líder da Liga e Ministro do Interior, está a exigir que outros países da UE - particularmente a França - aceitem mais requerentes de asilo. Depois de ter rejeitado, recentemente, um navio que transportava cerca de 600 migrantes, Salvini escreveu no Facebook: "Salvar vidas é um dever, transformar Itália num enorme campo de refugiados não".

 

A crescente hostilidade do eleitorado italiano contra a imigração é parte de uma tendência mais ampla em toda a UE, desde a Hungria e Polónia até ao Reino Unido. Pouco antes do referendo sobre o Brexit em 2016, o então primeiro-ministro britânico, David Cameron, fez um apelo de última hora à chanceler alemã, Angela Merkel, implorando-lhe que aceitasse um limite no movimento de pessoas para o Reino Unido. Merkel recusou e o Brexit venceu com uma margem curta.

 

A ironia é que Merkel está a enfrentar agora a mesma reacção anti-imigração que Cameron enfrentou em 2016. A imigração tende a ser boa para uma economia a longo prazo, especialmente se o rácio de reformados em relação aos trabalhadores estiver a aumentar. Mas quando o nível de imigração excede a capacidade de um país de absorver novos trabalhadores, pode haver custos económicos e sociais severos, pelo menos a curto prazo.

 

Em toda a UE, há tensões crescentes entre as concepções de autonomia local, soberania nacional e autoridade supranacional. Se a recuperação cíclica da Europa não se traduzir em crescimento sustentado a longo prazo, a ameaça quádrupla dos bancos, dívida, reacção anti-imigração e debilidade económica de Itália testarão a resiliência da moeda única - e da integração europeia em geral. Muito dependerá não apenas do novo governo de Itália, mas também do destino da agenda de reformas de Macron.

 

Michael J. Boskin é professor de Economia na Universidade de Stanford e membro sénior da Hoover Institution. Foi chairman do conselho de assessores económicos de George H. W. Bush de 1989 a 1993.

 

Copyright: Project Syndicate, 2018.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

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