Robert Skidelsky
Robert Skidelsky 03 de julho de 2018 às 14:00

Os valores familiares de Putin

A aliança táctica entre o Kremlin e os populistas alimenta o sonho de uma união ideológica que se estende "de Lisboa a Vladivostok", baseada não nos valores ocidentais, mas nos "eurasianos". Estes projectos geopolíticos estão a ganhar terreno e isso deveria ser um motivo de reflexão.

A fixação no actual campeonato do mundo de futebol, durante o qual se estima que um milhão de adeptos estrangeiros, muitos da Europa e dos Estados Unidos, se desloquem para Moscovo e outras cidades russas, pode mascarar até que ponto a Rússia e o Ocidente se distanciaram. Na verdade, as relações entre os dois lados são hoje puramente funcionais; uma nova guerra fria começou.

 

Será que a esperança de que a Rússia pós-soviética "se juntaria ao Ocidente" nunca passou de uma ilusão? Alguns mergulham a fundo na história russa para encontrar apoio para essa conclusão, invocando o jugo tártaro e a ausência de uma "iluminação". Outros vêem o distanciamento de forma mais contingente.

 

Por exemplo, no seu recente livro "China and Russia: The New Rapprochement", o cientista político russo Alexander Lukin argumenta que, embora a China tenha mais conflitos territoriais com a Rússia do que com qualquer outro país, a decisão do Kremlin de se aproximar de Pequim foi um "resultado natural". Como superpotência derrotada, a Rússia procurou criar um contrapeso para o vencedor.

 

Isso não era inevitável. Após o colapso soviético, o Ocidente, escreve Lukin, tinha duas opções: fazer uma tentativa séria de integrar a Rússia no mundo ocidental, trazendo-a para a NATO e oferecendo um novo Plano Marshall, ou ir cortando pedaço após pedaço aquilo que ele chama de "centro do mundo hostil". Escreve Lukin que os líderes ocidentais escolheram a segunda opção, expandindo a NATO e a União Europeia, sem prestar atenção aos liberais russos que advertiram que essas políticas fortaleceriam o autoritarismo russo.

 

Nesta perspectiva, as reacções russas devem ser vistas como amplamente defensivas. Assim, "a Rússia anexou a Crimeia em resposta à… tentativa óbvia da NATO de se aproximar demasiado das fronteiras da Rússia e empurrar a frota russa para fora do Mar Negro". Mas até que ponto isto foi óbvio é discutível: nenhuma grande potência dentro da NATO estava a pedir a adesão da Ucrânia, e os líderes da Ucrânia também não.

 

Lukin é um expoente da doutrina "realista" das relações internacionais, segundo a qual os Estados soberanos sempre tentarão regular as suas relações de acordo com o princípio do equilíbrio de poder. O esforço do Ocidente para consolidar a sua vitória na Guerra Fria não foi menos previsível do que o esforço da Rússia para a reverter.

 

Pelo contrário, a visão geral no Ocidente é que os Estados agora se comportam ou deveriam comportar de acordo com os princípios do direito internacional. Este debate é antigo. No seu estudo de 1939, The Twenty Years Crisis, o historiador E. H. Carr argumentou que o direito internacional sempre foi defendido por potências "satisfeitas", mas é sempre desafiado por poderes que esperam mudar o sistema internacional a seu favor.

 

Hoje, o Ocidente sanciona a Rússia por violar a lei internacional, enquanto a Rússia acusa o Ocidente de tentar desmembrar o "seu" espaço. A nova guerra fria não vai terminar até que o Ocidente ou a Rússia abandonem as suas ambições, ou ambos os lados cheguem à conclusão que há interesses comuns substanciais.

 

No livro "Russia and the Western Far Right", o académico ucraniano Anton Shekhovstov oferece uma explicação diferente, mas igualmente contingente, para o afastamento da Rússia do Ocidente. Ele vê-o como a resposta paranóica da "cleptocracia autoritária" da Rússia às tentativas do Ocidente de defender a independência de novos Estados soberanos como a Ucrânia e a Geórgia. O regime do presidente Vladimir Putin criou uma narrativa em que esses esforços são descritos como uma ameaça à integridade do espaço e alma russos.

 

Para Putin, o ponto de viragem veio com as "revoluções coloridas" de 2004 e 2008 na Ucrânia e na Geórgia, respectivamente. O que Shekhovstov não explica é como se estabeleceu a "cleptocracia autoritária" e porque é que continua a ser popular entre a maioria dos russos.

 

Parte do motivo deve ser económico. Os reformadores russos abraçaram ansiosamente o liberalismo económico no final dos anos 80. Não era a economia keynesiana mais antiga dos anos 1950 e 1960, mas o neoliberalismo de Milton Friedman e Margaret Thatcher. A consequência imediata da tentativa de implementar essas doutrinas na Rússia foi o colapso económico.

 

É certo que os reformadores, liderados por Yegor Gaidar, o primeiro líder de governo pós-comunista da Rússia, enfrentaram escolhas terríveis, já que o estado pós-comunista quase se desintegrou. Não obstante, a sua fé religiosa na privatização, nos mercados livres e no monetarismo levou-os a vendas de activos apressadas, desregulamentação irresponsável e deflação selvagem. Dessa catástrofe económica nasceu a cleptocracia de Putin.

 

Ao adoptarem o neoliberalismo económico de forma tão intransigente, os liberais políticos da Rússia perderam a oportunidade de herdar a sucessão ao comunismo. Pode-se dizer que os liberais tiveram pouco tempo. De qualquer forma, os danos políticos que infligiram à causa liberal foram grandes demais para poderem ser consertados pela recuperação económica subsequente.

 

O livro de Shekhovstov é particularmente interessante pelo seu relato da forma como o regime de Putin e os populistas de direita da Europa fizeram um inimigo comum: a ordem global liderada pelos Estados Unidos e apoiado pela UE. No centro da teia de aranha imaginada pelos populistas está uma criatura chamada "capitalismo financeiro". Insensível às fronteiras e aos empregos, alia-se a uma elite liberal que impõe às populações "saudáveis" uma agenda de casamentos entre pessoas do mesmo sexo e outras supostas "abominações". Desde 2011-2012, Putin, um tecnocrata puramente oportunista no início do seu governo, apropriou-se dessa retórica.

 

Shekhovstov argumenta que a ascensão de partidos populistas na Europa deu pela primeira ao regime de Putin poderosos interlocutores ocidentais. Matteo Salvini, líder da Liga e ministro do Interior no governo de coligação de Itália, recorda a atmosfera acolhedora de seu encontro com Putin em 2014: "Falámos sobre as absurdas sanções contra a Rússia introduzidas pela cobarde UE, que defende os interesses não dos cidadãos, mas dos oligarcas económicos" e sobre "tópicos importantes que vão desde a protecção da autonomia nacional até à luta contra os imigrantes ilegais e a defesa dos valores tradicionais".

 

Os valores russos e ocidentais estão, portanto, a convergir, pelo menos entre alguns no Ocidente. Desde o colapso económico de 2008-2009, o globalismo e as normas e regras económicas que o suportam foram desafiadas não só pelo presidente dos EUA, Donald Trump, mas também por populistas que entraram no mainstream europeu. Os que votam neles sentem-se "deixados para trás", não apenas economicamente, mas também culturalmente. Assim, vemos a curiosa fusão entre o proteccionismo e o conservadorismo cristão.

 

Tudo isto é música para os ouvidos de Putin, pois sugere um Ocidente que já não se opõe implacavelmente às práticas do seu regime. Não admira que o Kremlin tenha cortejado - e financiado - partidos populistas por toda a Europa.

 

A aliança táctica entre o Kremlin e os populistas alimenta o sonho de uma união ideológica que se estende "de Lisboa a Vladivostok", baseada não nos valores ocidentais, mas nos "eurasianos". Estes projectos geopolíticos estão a ganhar terreno e isso deveria ser um motivo de reflexão.

 

Robert Skidelsky, membro da Câmara dos Lordes britânica, é professor emérito de Economia Política na Universidade de Warwick.

 

Copyright: Project Syndicate, 2018.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria
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