Simon Johnson
O factor medo da reforma da banca
23 Setembro 2013, 08:00 por Simon Johnson
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Quase cinco anos depois da pior crise financeira desde os anos 30 e três anos depois da assinatura da reforma financeira Dodd-Frank nos Estados Unidos, há uma questão na mente de toda a gente: por que é que fizemos tão poucos progressos?

Foram prometidas novas regras mas muito poucas foram efectivamente implementadas. A “regra Volcker” (que limita a negociação com vista ao lucro próprio por parte dos bancos), as regras para os derivados são ainda um trabalho a decorrer e os fundos que operam no mercado monetário continuam sem reforma. Pior do que isso, os nossos maiores bancos ficaram ainda maiores. Não há sinais de que tenham abandonado a estrutura de incentivos que encorajou a excessiva assunção de riscos. E as grandes distorções criadas por serem “grandes demais para falir” pendem sobre muitas economias.

 

Há três possíveis explicações para aquilo que correu mal. Uma delas é a de que a reforma financeira é inerentemente complicada. Mas, embora muitos pormenores técnicos precisem de ser concretizados, algumas das pessoas mais inteligentes trabalham em agências de regulação mais importantes. Eles são mais do que capazes de escreverem e de aplicarem regras – isto é, quando isso é realmente aquilo que lhes é pedido.

 

A segunda explicação passa pelo conflito entre agências com jurisdições sobrepostas, tanto a nível nacional como internacional. Mais uma vez, há aqui um elemento de verdade mas já assistimos a grandes níveis de coordenação mesmo em assuntos muito complexos – tal como quanto capital os grandes bancos devem ter ou como a potencial falência de uma determinada empresa deve ser controlada.

 

Resta a última explicação: os responsáveis pela reforma financeira não querem, na verdade, um rápido progresso. Tanto nos EUA como na Europa, os líderes governamentais são dominados por um medo imperioso: que as economias voltem a mergulhar numa recessão – ou pior. Os grandes bancos jogam com este medo, defendendo que a reforma financeira vai impedir que dêem lucro e impedi-los de conceder crédito ou ainda com a ideia de que vão existir outras terríveis consequências não intencionadas. Tem havido uma verdadeira avalanche de grupos de pressão neste aspecto específico, que tem conduzido a uma acção lenta por parte dos políticos, por medo de prejudicarem a economia.

 

Mas isto é um grande erro – que é sustentado pelo desconhecimento sobre como é que os grandes bancos podem prejudicar a economia. As exigências de capitais próprios mais elevados, por exemplo, obriga os bancos a financiarem-se com relativamente mais fundos próprios e com relativamente menos dívida. Isto torna-os mais seguros porque estão melhor protegidos para absorver perdas e faz com que tenham menos possibilidade de se tornarem bancos zombies (que não concedem créditos de forma sensata).

 

Os bancos argumentam que as exigências de mais capital e de outras normas de regulação vão aumentar os custos do crédito. Mas não há sinais desse efeito – uma questão levantada, ainda que tardiamente, no relatório da política monetária da Reserva Federal para o Congresso norte-americana, em Julho. Pelo contrário, os maiores bancos norte-americanos estão a apresentar lucros muitos sólidos no último trimestre.

 

Infelizmente, uma grande parte dos lucros destes bancos decorre da negociação de valores mobiliários – exactamente o tipo de actividade de alto risco que os colocou em dificuldades na corrida para a crise financeira global de 2008. Há negócios amplamente alavancados, financiando o balanço com não mais do que 5% de fundos próprios (e 95% de dívida).

 

Para perceber a razão pela qual isto é um problema, considerem o que acontece quando se compra uma casa com uma entrada de apenas 5% (ou menos de 3%, que é uma melhor analogia para com os bancos europeus). Se os preços das casas subirem, obtém-se um bom retorno sobre o capital próprio (um melhor retorno do que se tivesse pago uma entrada de 20%). Mas se os preços das casas caírem, o capital pode muito bem ter desaparecido (que é o que significa a hipoteca subaquática).

 

As exigências de maiores capitais próprios para os bancos são bons para a economia no seu aspecto mais amplo – tornam a ocorrência de crises financeiras (e a síndrome dos zombies) menos provável, menos graves ou ambas. Os bancos norte-americanos são actualmente financiados com mais capital próprio do que antes da crise financeira e estão a aguentar-se.

 

Independentemente disso, devemo-nos ainda preocupar com a sua capacidade para explodirem de uma forma inovadora e criativa – daí, a necessidade de uma regra Volker, de uma reforma de derivados e de novas regras para o mercado monetário. E as exigências de capitais para grandes instituições financeiras de importância sistémica continuam a ser demasiado diminutas.

 

As últimas indicações são as de que os políticos norte-americanos estão finalmente a começar a centrar-se neste ponto. Contudo, muitos bancos europeus têm menos capital que os seus pares norte-americanos, o que cria uma importante fonte de vulnerabilidade para o futuro. Se é suposto existir uma ampla recuperação europeia, os bancos precisam de reforçar os capitais, de modo a fortalecerem a capacidade de absorver perdas potenciais. Infelizmente, há poucos sinais de que os decisores europeus tenham compreendido esta questão.

 

Ao invés, os grandes responsáveis da Europa pensam e falam como os norte-americanos faziam há três anos. Têm receio de abanar o barco financeiro, pelo que aplicam a reforma financeira de forma lenta e recusam-se a insistir em mais capital para os bancos. Este é um erro de que eles – e possivelmente todos nós – se podem vir a arrepender.

 

Simon Johnson é professor na Sloan School of Management do MIT e co-autor de White House Burning: The Founding Fathers, Our National Debt, And Why It Matters To You.

 

Direitos de autor: Project Syndicate, 2013.
www.project-syndicate.org

 

Tradução de Diogo Cavaleiro

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