André  Veríssimo
André Veríssimo 21 de março de 2017 às 00:01

Quem mexeu no meu balcão da Caixa

Anunciar o encerramento de 180 balcões da Caixa já é coisa para incendiar o país. Em ano de eleições autárquicas, com vários municípios em risco de perder o seu balcão, pior ainda.

"Ninguém peça à Caixa Geral de Depósitos (CGD) para ficar em todos os sítios onde os outros bancos não querem ficar. Se isso acontecesse, então a Caixa não saía dos seis anos de prejuízos que teve", avisou Paulo Macedo depois de anunciar um resultado negativo de 1.859 milhões de euros. O choque da perda serviu para atenuar o choque dos balcões e dos cerca de 2.200 empregos que será necessário extinguir.


Já se sabia que o plano era esse. Mas vê-lo confirmado ateou os protestos, com a proximidade das eleições municipais a darem combustível à indignação. Para um autarca, perder o balcão da Caixa é dar um trunfo à oposição. Há um valor simbólico de poder, até de segurança, associado à presença do banco do Estado. Fechar uma agência do BCP ou do Santander não tem o mesmo impacto. Uma cidade que tem uma agência da Caixa é mais cidade do que uma sem ela.

Vieram autarcas manifestar a sua fúria e os partidos, sem excepção. Se a Caixa não serve para prestar o serviço público, então serve para quê? O presidente do Sindicato dos Bancários do Sul e Ilhas assinala, na entrevista publicada hoje pelo Negócios, a pertinente distinção: "A Caixa é um banco público. Não é um banco de serviço público."

De acordo que a Caixa não tem uma concessão de serviço público, não recebe por ele. Mas já recebeu muito dinheiro dos contribuintes e vai receber mais. E é normal que, a haver um banco público, seja ele a garantir o acesso generalizado e equitativo de todos os portugueses aos serviços financeiros.

O argumento esbarra na realidade. E a realidade é que todos os restantes bancos do sistema estão a encerrar balcões que não são economicamente rentáveis. Se a Caixa os mantiver abertos perde dinheiro e perde para a concorrência.


Depois há o factor tecnológico, que continuará a levar as agências da rua para o ecrã do smartphone. A dezena de milhar de postos de trabalho perdidos e os milhares de agências encerradas é um efeito da crise, mas sobretudo de uma mudança de paradigma, em que rácios de capital mais exigentes obrigam a uma eficiência muito maior, sob pena de comprometer o retorno do capital investido que todos os bancos têm de procurar e a Caixa de entregar, ao Estado e a Bruxelas.

Como qualquer mudança de paradigma esta gera atritos e incompreensões, obriga a uma adaptação. E nesse processo, cabe ao Estado prevenir e resolver os efeitos perversos. É sua obrigação acautelar que o encerramento de balcões não resulta em exclusão no acesso a serviços financeiros.

O Presidente da República já sentenciou que o banco manterá presença em todos os concelhos do país. O ministro das Finanças diz estar "completamente seguro" de que todos os portugueses terão acesso a serviços bancários através da CGD (pode não ser propriamente um balcão). E Paulo Macedo, que tem muito mais senso político do que tinha António Domingues, já ensaia um recuo: o banco está a reavaliar a lista de agências a fechar. 
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mais votado JCG Há 5 dias

i/2__Ainda há pouco vi o Chefe do Governo de Portugal, Sr. A Costa, afirmar com a prosápia típica dos ignorantes arrogantes, a propósito da polémica com o fecho dos balcões da CGD, que o governo não se metia no dia-a-dia da gestão corrente da CGD.
Ninguém explica ao Sr. Costa que a rede de balcões de um banco e também da CGD, o seu o acesso à clientela alvo, não é uma questão de gestão corrente, mas um elemento central da gestão estratégica?
E o acionista, como é óbvio porque meteu o seu dinheiro no negócio, seja um acionista difuso/ contribuintes ou privado, tem o legítimo direito de se meter na estratégia e na definição de objetivos estratégicos, que normalmente passam pela rentabilidade (taxa de lucro) e pela dimensão expressa em quota de mercado? Ora a quota de mercado na banca está dependente dos canais de acesso aos segmentos alvo o que inclui a rede de balcões.
Contratar um equipa de gestores para gerirem uma empresa não implica dar-lhes carta branca

comentários mais recentes
5640533 Há 4 dias

Acho que ninguem no seu perceito juizo e de livre e eontanea vontade e cliente da Caixa.

xras45 Há 4 dias

Concordo com JCG em quase tudo mas não argumentar.
Deixo apenas mais farpa: As nomeações, contractações de pessoal para a cgd tem ou não a ver com as autarquias, vulgarmente conhecido por "tachos". Existe ou não conluio entre as autarquias locais e a selecção dessa pessoal contractado ? Estou em crer que deva exisitir muita premiação em função da orientação de voto.

Não irá essa tentativa de diminuir custos causar Incomodo a esse pessoal ?

JCG Há 5 dias

i/2__Ainda há pouco vi o Chefe do Governo de Portugal, Sr. A Costa, afirmar com a prosápia típica dos ignorantes arrogantes, a propósito da polémica com o fecho dos balcões da CGD, que o governo não se metia no dia-a-dia da gestão corrente da CGD.
Ninguém explica ao Sr. Costa que a rede de balcões de um banco e também da CGD, o seu o acesso à clientela alvo, não é uma questão de gestão corrente, mas um elemento central da gestão estratégica?
E o acionista, como é óbvio porque meteu o seu dinheiro no negócio, seja um acionista difuso/ contribuintes ou privado, tem o legítimo direito de se meter na estratégia e na definição de objetivos estratégicos, que normalmente passam pela rentabilidade (taxa de lucro) e pela dimensão expressa em quota de mercado? Ora a quota de mercado na banca está dependente dos canais de acesso aos segmentos alvo o que inclui a rede de balcões.
Contratar um equipa de gestores para gerirem uma empresa não implica dar-lhes carta branca

JCG Há 5 dias

ii/2__para fazerem com esse activo o que quiserem como se fosse deles ou, pior ainda, como se aquilo não fosse de ninguém. Em sociedade civilizada não há lugar para poderes absolutos e não fiscalizáveis.
Já viram como a incompetência se propaga como fogo em pastos ressequidos? Gestores pagos principescamente como se fossem crânios avançam com exigências e medidas parvas, irresponsáveis e até insultuosas que deviam ser suficientes para os dispensar imediatamente, secretário de estado e ministro embasbacados com a sua notoriedade andam aos papéis e não dão por nada nem têm qualquer ideia consistente sobre o assunto, a coisa gera celeuma e sobe ao chefe do governo que acrescenta umas larachas mal enjorcadas e sobe mais ainda até ao PR que hoje em dia se pronuncia sobre tudo e mais alguma coisa, por vezes juntando mais confusão.
Conseguem imaginar os elevadíssimos custos dos recursos e tempo que gastamos a discutir e a tentar atamancar os efeitos da incompetência?

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